Friday, November 09, 2007

Exorcismo

Bati o carro. É a única explicação para isso. Há cacos de vidro entre meus dedos, um barulho de serra na minha orelha e alguns ferros estranhos impedindo meu tronco de se movimentar. Demora um tempo até entender que o sangue espesso que gruda em meus pés vem de meu próprio corpo. No meio de gritaria e muito barulho, sou retirado das ferragens. Um tanto quanto fraco, é verdade, mas ainda encontro energias para revidar todos os auxílios de bombeiros e policiais e fazer meu caminho a pé pela rua escura. Eles não protestam muito. Está frio. Sinto o frio endurecendo o sangue que escorre pelas minhas pernas.

É uma sensação estranha, às vezes deixo o peso apoiado contra um poste indiferente, às vezes continuo andando sem entender o que é o caminho. Parei em frente a um puteiro. Entrei e procurei por uma loira que prestasse. É claro que ela olhou-me com uma repulsa medonha, dado meu estado e a palidez semi-morta de meu rosto. Por isso paguei o triplo do normal, e apenas para que ela deitar-se ao meu lado num abraço forte e dizer, beijando meu ouvido, que seria minha pela vida inteira. Coloquei o último centavo do aporte combinado em seu decote e disse a ela que a vida tinha acabando ali, e que estava extremamente agradecido pelos serviços prestados. E estava contente por o dinheiro permitir que nenhum interesse egoísta precisasse se camuflar ali em alguma falsa nobreza admirável. Senti uma dor enorme quando ela tirou sua coxa de cima de meu corpo, talvez meu fêmur direito estivesse levemente rachado. Estava quinhentos e oitenta reais mais pobre e dois litros mais pálido.

Depois de muitas cenas turvas e sensações estranhas, tive a impressão de estar diante de minha própria casa e deixei-me levar até a porta. Entrei. Havia uma garrava de wisky num dos armários da estante. Joguei longe a tampa e bebi com a garrafa virada na vertical sobre minha boca, deixando o álcool entrar por minha garganta e escorrer por sobre meu corpo. Não sei o que era mais prazeroso, se a sensação entorpecente que rapidamente tomava conta de meus músculos e de minha razão, ou se a dor produzida pelo álcool lavando a ferrugem de meus ferimentos sob o tecido estraçalhado de minhas roupas.

Joguei a garrafa sobre fotos que haviam numa prateleira. Ouvi o estilhaçar dos vidros da garrafa e das molduras. Talvez eu tenha tido a impressão de que as fotos amassadas, caídas no chão, também tinham prazer em compartilhar aquele resto de álcool. Olhavam em meus olhos agradecidas. Arrastei meus restos até o quarto. Abri a porta, cospi sangue sobre o carpete do corredor. O diabo estava deitado em minha cama, olhando para o teto. Seu corpo era grande e sólido, avermelhado tal qual o meu estava naquele momento ao redor dos ferimentos. Havia músculos por toda a parte resguardando uma força extrema. Diversas veias saltavam ou se recolhiam sob sua pele grossa num ritmo muito mais rápido que o de uma respiração normal, mas seu peito não se movia ao sabor de respiração alguma.

Ignorei a origem da carne carbonizada que aquecia o chão do recinto por todas as partes, apenas deixei que o cheiro envenasse meu olfato pouco a pouco, sem resistir... Subi na cama, em pé em uma das beiradas. Olhei aquele demônio nos olhos. Coloquei um pé de cada lado de sua cintura. Ajoelhei, um joelho de cada lado de seu tórax imenso. Beijei sua testa. Deixei escorregar a ponta dos dedos de suas orelhas aos seus lábios, tocando nos dentes, na gengiva. E então enfiei cada um de meus dedos indicadores em um de seus globos oculares, sentindo ora meus dedos queimarem ardentemente, ora congelarem a ponto de tornarem-se quebradiços. Ele não resistiu. Eu tocava o fundo de seu crânio com os dedos, por dentro. Era duro, frio e áspero. A Lua caiu sobre um estado vizinho e destroços voaram sobre minha casa, destruindo a janela, a cortina, a parede e o teto. Quanto mais eu empurrava seus miolos para fora de seu crânio, tentando retirar a força toda a existência errada dali, mais estrelas caiam do céu.

Olhei para seu rosto, para o sorriso plastificado que parecia homenagear com prazer todo esse festival de dor, e retirei meus dedos. De repente, essa sensação que ali eu experimentava era completamente nova, não tão simples de descrever quanto as do álcool ou da dor, que todos afinal já conhecem e dispensam maiores apresentações. Ao mesmo tempo que não era exagerada, era presente em cada poro agonizante de meu corpo. Saí de cima daquele demônio. Procurei pelos escombros da casa, em meio a toda a poeira que caia de um céu escuro, sem lua, pelos restos de meu guarda-roupa. Tomei em minhas mãos o maior cobertor que encontrei e talvez nesse momento um de meus dedos tenha caído, ou pelos ferimentos do acidente ou pelas condições extremas daquela besta que apalpara. Caminhei com o cobertor de volta à cama.

Ele ainda estava ali, mas não sorria mais como antes. Eu o cobri dos pés até o pescoço. Sentei-me ao chão, segurando uma de suas mãos entre as minhas, e comecei a cantar, baixinho. Músicas lentas, em notas alongadas. Leves. Havia um voto de bons sonhos em cada nota, e vez ou outra algo dentre os escombros ressoava junto à melodia. Seu rosto havia se tornado inexpressivo, porém sua respiração era forte agora. Um dos olhos que eu arrancara me olhava com ódio por debaixo de uma gaveta e algumas telhas, não muito longe dali. O outro eu nunca encontrei. Levantei-me, ajeitei a coberta e deitei ao seu lado. Abracei-o e acariciei seu rosto. Falei baixinho que eram erradas aquelas coisas todas, mas que eu estava contente por ele estar ali e permitir que eu mandasse ao inferno todas as minhas curiosidades indevidas sobre sua existência. Pedi desculpas pela bagunça da casa e ajeitei o travesseiro. Cantarolei alguma outra coisa até adormecermos.

Acordei com a luz do sol forte em minha cara, impossibilitando a distinção de qualquer vulto que eu flagrasse com esforço. Alguém pulou em cima de mim. Era minha mulher, sentada sobre minha barriga e batendo em meu rosto com um travesseiro. Dizia que eu era um vagabundo preguiçoso, e ria... Escorregou um beijo dos meus lábios até meus ouvidos e pediu que eu acordasse pra dividir o dia com ela. Saí da cama sentindo meu corpo abusrdamente dolorido, e fui chamado de velhaco falido logo nas primeiras tentativas frustradas de alongamento. Ela disse que já estava tudo pronto e conduziu-me até a sala, como se eu estivesse incapacitado de acreditar no caminho. Sobre o sofá, duas pequenas mochilas coloridas. À mesa, meus dois pequenos filhos terminando um café e disputando o mais novo brinde do cereal. Correram para me abraçar quase me levando ao chão. Sobre a estante, fotos de nossa família desde o casamento até esses dias. Fotos de viagens em lugares bonitos, e com caretas flagradas quase a contragosto. Pegaram a mochila, abriram a porta e esperaram minha companhia. Íamos caminhando pela calçada até a escola, a rua limpa, tranquila, arborizada e ensolarada. Um de cada lado de mim, conversavam entre si.

- Você viu que o Douglas disse que são feitos exorcismos de verdade naquela igrejinha, à noite?

- É tudo mentira dele!

- Ah, você tá com medo só, tá com medo de ir lá e ver um demônio saindo no meio do exorcismo.

- Não tô com medo não! Mentira sua!

- Pai, existem demônios?

Apertei suas pequenas mãos inocentes dentro das minhas.

- Talvez tenham existido, filho. Mas não mais. Não mais...

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