Monday, September 25, 2006
Certo ou errado?
As coisas vão acontecendo e fica sempre essa tentação muito, muito humana, de querer encontrar algum julgamento de valor escondido aqui e ali nos acasos que correm soltos. Algumas coisas eu gostaria mudar, mudar muito. E fica essa dúvida: é por conveniência, egoísmo, ou por alguma razão maior? Há algo de errado se for por puro egoísmo?! Mas outras... Outras acontecem e reforçam essa certeza de que alguma justiça há por aí. Alegrias alheias tão bonitas de se ver que invadem um pouco de nossas alegrias escondidas também.
Wednesday, September 20, 2006
For further investigation. . .
- http://www.neil.nu/yak.html - The russian Yak-18 as a little R/C model.
- http://web.vtc.edu/MEC/1012/Spring_05/Electronic_Notebooks/SClement/SClement.htm - A very interesting concept
- www.combataircraft.com - lots of line drawings, performance information and pictures.
- http://books.elsevier.com/companions/034074152X/appendices/data-a/default.htm - Complete tables with performance and geometric data for lots of airplanes. Excel files available.
Friday, September 15, 2006
Thursday, September 14, 2006
Um bom lugar para se viver
O semáforo se fecha.
- Ô tio, leva um chiclete aí?!
A cabeça dentro do carro acena que não.
Segue o menino adiante.
A cabeça dentro do carro observa pelo retrovisor.
O menino volta.
- Ô garoto!
- Vai levá um?
- Me diga, você estuda?
- Estudo, tô na sexta série.
- E mora aonde?
- Lá pro lado de Guaianazes...
- É bem longe... Então, e o que você quer ser quando crescer?
- Eu queria ser bombeiro.
- Então promete pra mim que vai estudar sempre e não vai desistir? Se vocâ não desistir, vai conseguir ser bombeiro, garanto!
E a mão se estende janela afora com um real.
- Prometo. Toma.
Entrega-se a caixa de chiclete.
- Não vou levar o chiclete não, pode ficar.
Esta cidade apresenta um ótimo custo de vida. Compra-se nas ruas, por um real, paz de espírito e uma alforria da realidade.
- Ô tio, leva um chiclete aí?!
A cabeça dentro do carro acena que não.
Segue o menino adiante.
A cabeça dentro do carro observa pelo retrovisor.
O menino volta.
- Ô garoto!
- Vai levá um?
- Me diga, você estuda?
- Estudo, tô na sexta série.
- E mora aonde?
- Lá pro lado de Guaianazes...
- É bem longe... Então, e o que você quer ser quando crescer?
- Eu queria ser bombeiro.
- Então promete pra mim que vai estudar sempre e não vai desistir? Se vocâ não desistir, vai conseguir ser bombeiro, garanto!
E a mão se estende janela afora com um real.
- Prometo. Toma.
Entrega-se a caixa de chiclete.
- Não vou levar o chiclete não, pode ficar.
Esta cidade apresenta um ótimo custo de vida. Compra-se nas ruas, por um real, paz de espírito e uma alforria da realidade.
Wednesday, September 13, 2006
=D
Mais um motivo para você ir atrás do livro de Paul Auster que mencionei no post de baixo:
"Meu pai é obcecado por seu nariz, escravizado por ele. Na sua cabeça, Deus criou o nariz como uma brincadeira e esqueceu dele na correria para criar o mundo antes de domingo, seu dia de folga. Meu pai e Deus têm muita coisa em comum: Deus tem o destino de todas as vidas sobre seus ombros, papai tem renite alérgica. Para papai, isso dá um empate."
"Meu pai é obcecado por seu nariz, escravizado por ele. Na sua cabeça, Deus criou o nariz como uma brincadeira e esqueceu dele na correria para criar o mundo antes de domingo, seu dia de folga. Meu pai e Deus têm muita coisa em comum: Deus tem o destino de todas as vidas sobre seus ombros, papai tem renite alérgica. Para papai, isso dá um empate."
Tuesday, September 12, 2006
Edith Riemer
Ela ganhou, aos treze anos, uma bicicleta. Perdeu os pais em um campo de concentração e foi parar na Inglaterra. Acabou achando a bicicleta, mas não podia andar nela pois os ingleses não gostavam de ver aquela bicicleta alemã desfilando por aí.
A história, contada pela própria Riemer, não ocupa nem quatro páginas do livro de Paul Auster, "Achei que meu pai fosse deus". É da Companhia das Letras, e contém inúmeras histórias que ouvintes de uma rádio enviavam para serem lidas no ar. O autor do livro é o próprio radialista, que selecionou as melhores dentre umas quatro mil e montou o livro.
Eu estava achando o livro simplesmente curioso e divertido até chegar a história da bicicleta. Eu amo bicicletas. E também acho história um assunto interessante. E me divirto ao ver amostras da estupidez humana. E amo ser humano e ficar comparando minhas estupidezas com as dos outros.
Tá recomendada a leitura.
A história, contada pela própria Riemer, não ocupa nem quatro páginas do livro de Paul Auster, "Achei que meu pai fosse deus". É da Companhia das Letras, e contém inúmeras histórias que ouvintes de uma rádio enviavam para serem lidas no ar. O autor do livro é o próprio radialista, que selecionou as melhores dentre umas quatro mil e montou o livro.
Eu estava achando o livro simplesmente curioso e divertido até chegar a história da bicicleta. Eu amo bicicletas. E também acho história um assunto interessante. E me divirto ao ver amostras da estupidez humana. E amo ser humano e ficar comparando minhas estupidezas com as dos outros.
Tá recomendada a leitura.
Sunday, September 10, 2006
Outros sonhos
Chico Buarque
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embebecia
Se empetecava João
Se emperequetava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia
Belo e senero era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sono era bom
Porque ela sorria, até quando chovia
Guris inertes do chão
Falavam de astronomia
E me juravam o diabo
Que Deus existia
De mão de mão o ladrão,
Relógios distribuía
E a policia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível
Ah, sonhei que tu me querias
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embebecia
Se empetecava João
Se emperequetava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia
Belo e senero era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sono era bom
Porque ela sorria, até quando chovia
Guris inertes do chão
Falavam de astronomia
E me juravam o diabo
Que Deus existia
De mão de mão o ladrão,
Relógios distribuía
E a policia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível
Ah, sonhei que tu me querias
Monday, September 04, 2006
United 93
Gastei o tempo como pude, pois comprei o ingresso cedo demais. Fui andar pela Paulista, mas estava muito frio. Voltei e experimentei uma novidade meio estranha: pizza de strogonoff. Pedi que a outra metade fosse de margueritta, para compensar eventuais surpresas desagradáveis, mas no fim a pizza agradou. Depois continuei a leitura do Annual Review sobre "environmental values". Estava lendo mais precisamente a discussão sobre altruísmo quando chegou a hora do filme, e agora estou para continuar a leitura. Nada mais apropriado.
Durkheim classificaria os suicidas que protagonizaram os seqüêstros de 11 de setembro como sendo do tipo "altruístas", ou seja, eles livram-se da própria vida por força de uma estrutura social externa que se sobrepõe a todos os impulsos pessoais de manutenção da vida. É uma patologia social perigosa (soaria academicismo exagerado falar isso antes do fatídico dia 11), até porque envolve indivíduos sem nenhuma "anomalia", não é um tipo de loucura. Pelo contrário: compõe-se precisamente de um excesso de coerência com a estrutura social vigente.
Tá bom, falo um pouco sobre o filme, explicitamente: é muito bom. Realista. Eu fiz uma lista pequenas de momentos "hollywoodianescos", no mau sentido, mas só os mais chatões ficariam implicando com estes detalhes. É um filme como eu diria que tem que ser os principais filmes sobre o 11 de setembro (bem como outros filmes históricos documentando atrocidades do homem contra o homem): mostrar a coisa como ela deve ter se passado mesmo, sem mais nem menos.
Um pensamento que me é recorrente sobre essa história dos atentados é sobre a recorrente crítica de que "o sistema de defesa americano falhou". Não, eu não fico criticando ou tirando sarro dos americanos como muita gente por aí. E também nada de ficar achando que o sistema de defesa deles é algo como se vê nos filmes em que americanos vencem alienígenas. É fato eles não estavam preparados para o que aconteceu. Mas também é admirável a estrutura tecnológica que, sim, os norte-americanos têm instalada para controle do espaço aéreo e possível intervenção (interceptação de alvo por caças ou mesmo mísseis). Mas nesse contexto todo, o que me interessa é ver como as ações, sempre, invariavelmente, passam por pessoas. Em um dado momento, os militares tiveram autorização para abater aviões sequestrados. A ordem não foi passada adiante pelo receio de que, no meio de toda a confusão, aeronaves não-sequestradas fossem acidentalmente abatidas.
Computadores. Radares. Jatos supersônicos. Mísseis nucleares. Satélites. Rede integrada de informações.
E por trás de tudo, a guerra entre bom-senso, equívocos e as piores das intenções.
A guerra mais séria vivida pelo mundo é a guera das decisões.
Durkheim classificaria os suicidas que protagonizaram os seqüêstros de 11 de setembro como sendo do tipo "altruístas", ou seja, eles livram-se da própria vida por força de uma estrutura social externa que se sobrepõe a todos os impulsos pessoais de manutenção da vida. É uma patologia social perigosa (soaria academicismo exagerado falar isso antes do fatídico dia 11), até porque envolve indivíduos sem nenhuma "anomalia", não é um tipo de loucura. Pelo contrário: compõe-se precisamente de um excesso de coerência com a estrutura social vigente.
Tá bom, falo um pouco sobre o filme, explicitamente: é muito bom. Realista. Eu fiz uma lista pequenas de momentos "hollywoodianescos", no mau sentido, mas só os mais chatões ficariam implicando com estes detalhes. É um filme como eu diria que tem que ser os principais filmes sobre o 11 de setembro (bem como outros filmes históricos documentando atrocidades do homem contra o homem): mostrar a coisa como ela deve ter se passado mesmo, sem mais nem menos.
Um pensamento que me é recorrente sobre essa história dos atentados é sobre a recorrente crítica de que "o sistema de defesa americano falhou". Não, eu não fico criticando ou tirando sarro dos americanos como muita gente por aí. E também nada de ficar achando que o sistema de defesa deles é algo como se vê nos filmes em que americanos vencem alienígenas. É fato eles não estavam preparados para o que aconteceu. Mas também é admirável a estrutura tecnológica que, sim, os norte-americanos têm instalada para controle do espaço aéreo e possível intervenção (interceptação de alvo por caças ou mesmo mísseis). Mas nesse contexto todo, o que me interessa é ver como as ações, sempre, invariavelmente, passam por pessoas. Em um dado momento, os militares tiveram autorização para abater aviões sequestrados. A ordem não foi passada adiante pelo receio de que, no meio de toda a confusão, aeronaves não-sequestradas fossem acidentalmente abatidas.
Computadores. Radares. Jatos supersônicos. Mísseis nucleares. Satélites. Rede integrada de informações.
E por trás de tudo, a guerra entre bom-senso, equívocos e as piores das intenções.
A guerra mais séria vivida pelo mundo é a guera das decisões.
Saturday, September 02, 2006
Bêbado
O álcool.... o álcool tem um quê de previsibilidade que me causa incômodo e até uma certa repulsa. Eu jamais admitirei depois de tê-las dito, mas sei de todas as palavras e pensamentos proibidos que tenho e que tentarão fugir a público impelidos pelo álcool. Aos outros será um efeito criativo e surpreendente. Para mim continuará a mesma monotonia. Preciso então de um outro vício, pois este não me serve.
O inesperado. Aquilo que é vivo de uma vida organicamente autônoma. Isso sim. O expontâneo. Já parou para pensar no quão complicado é conquistar o expontâneo? Não se trata de uma negociação... de um jogo ou de uma troca. Conquistar o expontâneo é quase uma contradição, mas ainda assim possível. Está no limite entre os sonhos mais justos e as sujeiras mais possíveis.
Quero mais um copo.
O inesperado. Aquilo que é vivo de uma vida organicamente autônoma. Isso sim. O expontâneo. Já parou para pensar no quão complicado é conquistar o expontâneo? Não se trata de uma negociação... de um jogo ou de uma troca. Conquistar o expontâneo é quase uma contradição, mas ainda assim possível. Está no limite entre os sonhos mais justos e as sujeiras mais possíveis.
Quero mais um copo.
Wednesday, August 30, 2006
Até nunca mais
Eu estava subindo o último lance de escadas, já olhando para a sala de leituras tentando descobrir qual seria o lugar vago esperando por mim. Ela vinha no sentido oposto, distraída, até que me viu. E ficou olhando nos meus olhos, e eu nos olhos dela, de uma maneira rara de acontecer entre pessoas desconhecidas. Segundos se passaram, e conforme andávamos, não paramos de nos olhar.
- A gente se conhece?
- Talvez, parece né...
Mas quem seria? Conversamos sobre nossos colégios, cursinhos, enfim... Nada. E naquela confusão de histórias desconexas, um tchau. Um adeus.
- A gente se conhece?
- Talvez, parece né...
Mas quem seria? Conversamos sobre nossos colégios, cursinhos, enfim... Nada. E naquela confusão de histórias desconexas, um tchau. Um adeus.
Wednesday, August 23, 2006
João Rodrigues
Chega. Não aguento mais os pobres. Pobres e outros miseráveis de espécies quaisquer. Os sujos. Quero que sumam. Não me importa para onde vão. Não me importa que continuem pobres. Sinto muito, ou melhor, não sinto nada, se eles continuarem pobres, imundos, doentes e bêbados. Só me incomoda quando chegam perto. Na janela do carro pedindo dinheiro. Nas calçadas pedindo comida. Nas praças procurando conversa ou nos trens vendendo qualquer lixo. Sou a favor dos programas que pregam fome zero e ajuda isso ou aquilo porque aí fica bem claro que é responsabilidade dos outros cuidar dessa gente nojenta, doente. Eu quero que o mundo seja feliz, rico, saudável e limpo, mas isso não quer dizer que eu queira ver limpar os sujos, curar os doentes ou enriquecer os pobres. Isso dá trabalho, custa tempo e dinheiro. Parte desse tempo e dinheiro são meus e me deu trabalho demais conquistá-los para que tomem gratitamente de mim. Se eles simplesmente sumissem, o mundo já não estaria melhor? Tudo bem, temos que respeitar os direitos humanos e não podemos cometer atrocidades que possam vir a se voltar contra nós mesmos... concordo. Eu também quero ter minha consciência limpa pra viver em paz. Então não precisamos sumir com os pobres, apenas afastá-los. Por que eles vêm falar comigo? Que o governo mate a fome deles, que da minha fartura não quero que levem nem um pedaço. Eu tive a decência de manter minhas mãos limpas para merecê-la, de me perfumar antes de sair de casa e de acreditar que a vida tinha jeito. Se eles cairam no vício, no desencanto, na desesperança, estão tendo a fome e o frio que lhes é meritório, e não quero ousar tirar-lhes essa tão difícil conquista. Eu também tenho pessoas ao meu redor que eu poderia decidir abandonar por me sentir inferior, ou por achar que não me amam o suficiente. Também poderia acordar e decidir que nada vai levar a um futuro que valha a pena e que a única coisa com algum valor são os delírios guardados no fundo de um sujo copo de pinga barata. Mas não. Acordo todas as manhãs e, com algum trabalho, acho razões para tirar a sujeira debaixo das unhas e deixar o álcool somente para quando houver mulheres e piadas por perto. Se os sujos das ruas não acham essas razões, não sou eu quem vai dizer-lhes onde encontrá-las. Talvez esse desânimo seja genético e eles tenham todos uma propensão a desistir da vida. Então é melhor mesmo que morram ou pelo menos se tornem completamente inválidos antes de conseguir se reproduzir, assim talvez em umas duas ou três gerações estejamos todos mais limpos e podendo nos preocupar com outros problemas. Mas volto a insistir: é só eles estarem longe que eu já não me incomodo. Pago para que outros apertem as mãos dos pobres e lhes dêem sopa quente, desde que eu tenha a certeza de que nenhum deles venha tentar me cumprimentar. Prefiro ser roubado aos milhões pelas pessoas limpas e bem vestidas de Brasília do que às migalhas por essa gente com remela no olho e sujeira de asfalto no buraco das roupas.
Eu penso assim e você também pensa exatamente assim, não é? Não? Seja sincero... Se você não pensa assim, então porque você age como se pensasse assim? Enquanto não nos dispusermos a agir de uma forma mais humana, que tal ao menos termos coragem de expor às claras nossos pensamentos e termos coragem de assumir essa sujeira escondida debaixo de nossas roupas limpas e peles perfumadas? Ou então, quem sabe, poderíamos agir de outra forma...
Eu penso assim e você também pensa exatamente assim, não é? Não? Seja sincero... Se você não pensa assim, então porque você age como se pensasse assim? Enquanto não nos dispusermos a agir de uma forma mais humana, que tal ao menos termos coragem de expor às claras nossos pensamentos e termos coragem de assumir essa sujeira escondida debaixo de nossas roupas limpas e peles perfumadas? Ou então, quem sabe, poderíamos agir de outra forma...
Compensa...
Muito, muito trabalho. Mas compensa. Depois de meses investindo em uma questão que em inúmeros momentos parecia completamente perdida, ter em mãos um enorme calhamaço de resultados consistentes, apresentando apenas problemas menores, a sensação não pode ser outra: compensa. O conhecimento acumulado com o trabalho envolve tanto aspectos teóricos como, principalmente, aspectos práticos da realização dos trabalhos. Estou cansado. Vou dormir.
Tuesday, August 22, 2006
Inefáveis pensamentos
Eu escrevo um post enorme falando que as palavras originam tudo, e aí aparece no MSN essa amiga com o nick "inefável". Fiquei curioso sobre a palavra e logo descobri: inefável é o "que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza; indizível, indescritível". Poxa vida... eu defendendo que as palavras criam tudo, e surge essa palavra pra falar sozinha de tudo o que não é palavreável!?!
Achei que haviam descoberto um abismo lógico nas idéias que rascunhei alguns posts abaixo. Mas depois, pensando melhor, vi que a própria palavra inefável soluciona o mistério que criou. As coisas todas inefáveis, afinal, ao menos uma palavra recebem. Essa palavrinha engraçada está no fim do mundo das palavras já.
Em resumo: as coisas inefáveis não são inefáveis pois diz-se delas que são inefáveis.
Achei que haviam descoberto um abismo lógico nas idéias que rascunhei alguns posts abaixo. Mas depois, pensando melhor, vi que a própria palavra inefável soluciona o mistério que criou. As coisas todas inefáveis, afinal, ao menos uma palavra recebem. Essa palavrinha engraçada está no fim do mundo das palavras já.
Em resumo: as coisas inefáveis não são inefáveis pois diz-se delas que são inefáveis.
Sunday, August 20, 2006
El dia que me quieras
- Comentários sobre a peça pela revista Bravo! em http://www.bravoonline.com.br/noticias.php?id=1401
- Vídeo no YouTube com a música, cantada por Sara Montiel. Procure por "SARA MONTIEL - EL DIA QUE ME QUIERAS".
- E, por fim, a letra da música:
Acaricia mi ensueño
el suave murmullo
de tu suspirar.
Como ríe la vida
si tus ojos negros
me quieren mirar.
Y si es mío el amparo
de tu risa leve
que es como un cantar,
ella aquieta mi herida,
todo, todo se olvida.
El día que me quieras
la rosa que engalana,
se vestirá de fiesta
con su mejor color.
Y al viento las campanas
dirán que ya eres mía,
y locas las fontanas
se contarán su amor.
La noche que me quieras
desde el azul del cielo,
las estrellas celosas
nos mirarán pasar.
Y un rayo misterioso
hará nido en tu pelo,
luciernagas curiosas que verán
que eres mi consuelo.
El día que me quieras
no habrá más que armonía.
Será clara la aurora
y alegre el manantial.
Traerá quieta la brisa
rumor de melodía.
Y nos darán las fuentes
su canto de cristal.
El día que me quieras
endulzará sus cuerdas
el pájaro cantor.
Florecerá la vida
no existirá el dolor.
La noche que me quieras
...
Velha ordem na Terra
"Rebaixado ou confirmado como planeta, Plutão não mudará seu penoso curso, que leva 250 anos dos nossos anos para completar uma volta em torno do Sol. Xena continuará sua vida sombria de bola de gelo. Mas a definição do que eles são ou deixam de ser tem o potencial de provocar uma certa bagunça nas fantasias, nas crenças, nos símbolos, nos sonhos, nos medos, nos risos e nas lágrimas dos homens." [Roberto Pompeu de Toledo, no Ensaio da Veja ed. nº1970]
Pois é. Um grupo de cientistas se reunirá em Praga para discutir sobre isso... Palavras. Chamar ou não pedregulhos gigantes e redondos por "planetas"? E a observação de que, qualquer nome que for, eles continuarão fazendo as mesmas coisas que fazem, sendo por trás das palavras as mesmas coisas que, em silêncio mudo, sempre foram.
O encontro em Praga é um dentre tantos todos os fenômenos que, bem observados, indicam uma coisa só: são as palavras. No fundo, os astrônomos não estão preocupados com os planetas, mas com as palavras que associam a eles. Não querem trabalhar para entender os céus, mas precisam loucamente de todos os debates possíveis para construir um grande castelo de palavras em seus imaginários. E não são só os astrônomos. São todos. Todos.
Dentre as palavras, é claro, os substantivos desempenham esse papel religioso fundamental: substancializam. Constroem o mundo do lado de dentro, o lado que importa. E aí nasce o mundo, afinal só enxergamos das palavras pra dentro. Não é assim, afinal?
Não é verdade que a realidade física manifesta, quer seja de planetas, quarks, muons, olhares, contratos, dinheiros ou projéteis, pouco importa? Afinal, "ter" não é em momento algum da história a posse física atual, mas sim a ameaça futura de retaliações e agressões contra os que ousarem transgredir a posse substancializada pela palavra "meu". E assim também das palavras fazem-se as guerras, os sucessos, os amores, os fracassos. Quão pobre de substância é a matéria sem sua palavra, a ofensa de olhares e imagens se impalavreável... Quão inexistente...
Mas e quanto a esses momentos em que nos colocamos no alto de uma grande paisagem e experimentamos as sensações todas do contemplar, de ouvir o vento, de entender a tarde? São só momentos em que o ser busca se des-substancializar, deixar de ser. São minutos em que se é pra si. Existências desaparecidas pra nunca ninguém saber. E, com efeito, o que fica são apenas as palavras divulgáveis e a todos inteligíveis do que muito se queria ter em segredo.
Um alquimista tentou purificar de todo a complexa substância amor apenas o que fosse sentimento. Julgou pelos antigos princípios de sua ciência que teria assim a maior parte das substâncias envolvidas, mas estava enganado. Terminou com um vidro vazio. Porque essa coisa cheia de sentimentos e só que ele esperava encontrar não é amor. Amor são palavras e atos. São exterioridades apropriáveis, e nunca manifestações invisíveis ou categorizáveis por palavras dúbias. As poesias e declarações não são fruto do amor. São seu alicerce. E é essa a ordem das coisas que se manifesta também em outras substâncias jamais tão bem exploradas pelos alquimistas.
Os substantivos inventaram o homem. Que criou Deus como sua sonhada imagem mas com semelhante dissimulação. E Deus criou o Universo, descançou no sétimo dia. E teria ido para a praia no oitavo, não fosse o desestímulo dos congestionamentos.
Para destruir a humanidade, destrua primeiro as palavras, que imediatamente as engrenagens esquecerão o que é girar e os canhões desconhecerão qualquer sentido de mirar ou atirar. E não importa que de então em diante pouco sobrará neste planeta. O que é, afinal, um planeta?
Pois é. Um grupo de cientistas se reunirá em Praga para discutir sobre isso... Palavras. Chamar ou não pedregulhos gigantes e redondos por "planetas"? E a observação de que, qualquer nome que for, eles continuarão fazendo as mesmas coisas que fazem, sendo por trás das palavras as mesmas coisas que, em silêncio mudo, sempre foram.
O encontro em Praga é um dentre tantos todos os fenômenos que, bem observados, indicam uma coisa só: são as palavras. No fundo, os astrônomos não estão preocupados com os planetas, mas com as palavras que associam a eles. Não querem trabalhar para entender os céus, mas precisam loucamente de todos os debates possíveis para construir um grande castelo de palavras em seus imaginários. E não são só os astrônomos. São todos. Todos.
Dentre as palavras, é claro, os substantivos desempenham esse papel religioso fundamental: substancializam. Constroem o mundo do lado de dentro, o lado que importa. E aí nasce o mundo, afinal só enxergamos das palavras pra dentro. Não é assim, afinal?
Não é verdade que a realidade física manifesta, quer seja de planetas, quarks, muons, olhares, contratos, dinheiros ou projéteis, pouco importa? Afinal, "ter" não é em momento algum da história a posse física atual, mas sim a ameaça futura de retaliações e agressões contra os que ousarem transgredir a posse substancializada pela palavra "meu". E assim também das palavras fazem-se as guerras, os sucessos, os amores, os fracassos. Quão pobre de substância é a matéria sem sua palavra, a ofensa de olhares e imagens se impalavreável... Quão inexistente...
Mas e quanto a esses momentos em que nos colocamos no alto de uma grande paisagem e experimentamos as sensações todas do contemplar, de ouvir o vento, de entender a tarde? São só momentos em que o ser busca se des-substancializar, deixar de ser. São minutos em que se é pra si. Existências desaparecidas pra nunca ninguém saber. E, com efeito, o que fica são apenas as palavras divulgáveis e a todos inteligíveis do que muito se queria ter em segredo.
Um alquimista tentou purificar de todo a complexa substância amor apenas o que fosse sentimento. Julgou pelos antigos princípios de sua ciência que teria assim a maior parte das substâncias envolvidas, mas estava enganado. Terminou com um vidro vazio. Porque essa coisa cheia de sentimentos e só que ele esperava encontrar não é amor. Amor são palavras e atos. São exterioridades apropriáveis, e nunca manifestações invisíveis ou categorizáveis por palavras dúbias. As poesias e declarações não são fruto do amor. São seu alicerce. E é essa a ordem das coisas que se manifesta também em outras substâncias jamais tão bem exploradas pelos alquimistas.
Os substantivos inventaram o homem. Que criou Deus como sua sonhada imagem mas com semelhante dissimulação. E Deus criou o Universo, descançou no sétimo dia. E teria ido para a praia no oitavo, não fosse o desestímulo dos congestionamentos.
Para destruir a humanidade, destrua primeiro as palavras, que imediatamente as engrenagens esquecerão o que é girar e os canhões desconhecerão qualquer sentido de mirar ou atirar. E não importa que de então em diante pouco sobrará neste planeta. O que é, afinal, um planeta?
You Tube!
Algumas palavras-chave de hoje:
- freak
- loneliness (embora dê muito trabalho filtrar as inúmeras músicas que aparecem aqui.... não estava procurando músicas)
- Tapa na pantera (não confunda com tapa na lagartixa, não tem nada a ver)
- Carlos Gardel (sim, tem vídeos dele lá)
- El Perseguidor (Julio Cortázar)
- São Paulo
- Kazebre
- Charlie Parker & Dizzy Gillespie
Saturday, August 19, 2006
El dia que me quieras
Muito boa a peça, que está em cartaz no "Galpão do Folias", ali bem do lado da estação Santa Cecília do metrô. A sinopse:
"Escrita em 1979, a comédia do venezuelano Ignácio Cabrujas já ganhou várias montagens no Brasil. A atual, traduzida por Antônio Mercado, está sob responsabilidade da companhia paulistana Folias. A peça sintetiza uma época de esperanças frustradas a partir da visita do cantor Carlos Gardel à casa de uma família tradicional. Enquanto suas irmãs tentam manter o glamour dos áureos tempos, Maria Luísa deseja vender a casa para aventurar-se pelo mundo com o noivo comunista. Três músicos (piano, violino e percussão) acompanham o elenco em seis canções, entre elas Cuesta Abajo e Por una Cabeza, além do clássico que dá nome ao espetáculo. Direção de Marco Antonio Rodrigues."
Vale comentar também do teatro. Você entra, e percebe que está cruzando o palco. A platéia fica do lado oposto. Então, enquanto você está sentado assistindo a peça, vê atrás do palco a porta que dá para a rua. E a porta era efetivamente utilizada como porta da casa que estava sendo encenada. É claro que os desavisados que passavam pela rua no momento tinham reações das mais engraçadas. E não pude deixar de fazer o comentário à minha amiga: "Caramba, quantos figurantes, hein?!"
Destaques: Elvira, a expressiva tiazona pulso firme (endurecido pela vida); a angelical violinista que tudo observa... ah, todos estavam muito bons! Eu gostei.
"Escrita em 1979, a comédia do venezuelano Ignácio Cabrujas já ganhou várias montagens no Brasil. A atual, traduzida por Antônio Mercado, está sob responsabilidade da companhia paulistana Folias. A peça sintetiza uma época de esperanças frustradas a partir da visita do cantor Carlos Gardel à casa de uma família tradicional. Enquanto suas irmãs tentam manter o glamour dos áureos tempos, Maria Luísa deseja vender a casa para aventurar-se pelo mundo com o noivo comunista. Três músicos (piano, violino e percussão) acompanham o elenco em seis canções, entre elas Cuesta Abajo e Por una Cabeza, além do clássico que dá nome ao espetáculo. Direção de Marco Antonio Rodrigues."
Vale comentar também do teatro. Você entra, e percebe que está cruzando o palco. A platéia fica do lado oposto. Então, enquanto você está sentado assistindo a peça, vê atrás do palco a porta que dá para a rua. E a porta era efetivamente utilizada como porta da casa que estava sendo encenada. É claro que os desavisados que passavam pela rua no momento tinham reações das mais engraçadas. E não pude deixar de fazer o comentário à minha amiga: "Caramba, quantos figurantes, hein?!"
Destaques: Elvira, a expressiva tiazona pulso firme (endurecido pela vida); a angelical violinista que tudo observa... ah, todos estavam muito bons! Eu gostei.
Thursday, August 17, 2006
Vivo
Hoje foi um dia.... movimentado, no melhor dos sentidos. As coisas aconteceram. Foi um dia em que eu dormi, descansei. Foi um dia em que trabalhei. Errei, persegui os erros e os encontrei. Resolvi. Não sozinho, tive ajuda, e das mais valiosas. Foi um dia em que ajudei também. Foi um dia em que segui a agenda, segui os planos que fiz ontem à noite com o travesseiro. Foi um dia em que rompi de última hora com os planos para participar, sem maiores cerimônias, de um almoço com os amigos. Foi um dia em que encontrei, de surpresa, pessoas muito queridas. Foi um dia em que fui ofendido, com uma azedura dura no olhar e na voz. Foi um dia em que relevei. Foi um dia em que ofendi, em que vi a paciência ir embora rápido. Foi um dia em que as horas passaram depressa. Foi um dia com diversas janelas de calmaria. Foi um dia em que comi bem. Foi um dia com conversas inusitadas, aleatórias, fora de hora. Foi um dia em que vi pessoas ao meu redor crescerem. Li bastante. Coloquei alguns escritos em dia também. Criei. Considerei, pensei, senti. Há dias que cabem na vida como uma luva.
De um ontem de mim...
"Talvez não somos tão grandes como pensamos. Daí que guardar assuntos dentro de nós faz com que pareçam maiores do que realmente são."
Em um caderno bem velho.
Em um caderno bem velho.
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