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Thursday, January 28, 2010

Como, e por que, as pessoas se apaixonam?

Homens e mulheres se apaixonam da mesma forma? Se há diferenças, quais são? O que a evolução tem a dizer sobre isso? O que as pesquisas recentes andam fuxicando a este respeito? Ler sobre isso vai te ajudar a arranjar alguém? Ao menos esta última pergunta tem uma resposta fácil: não! Ainda assim, se você não estiver na urgência, pode gastar uns minutinhos lendo uma interessante pesquisa de Andrew Galperin e Martie Haselton, ambos do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia. O artigo completo, em inglês, esta aqui.

Thursday, November 12, 2009

Sabedoria para a escrita

Poxa vida. Schopenhauer, com aquela cabelera toda, acabou me desapontando. Começa magistralmente bem seu "Sabedoria para a vida", ponderando sobre as diferenças. Depois... Bom, vai ver que eu é que não entendi a ironia. Ele começa o texto afirmando muito claramente como cada um é diferente e preso à própria natureza, imerso na própria realidade, e como essa não necessariamente apresenta uma conexão direta com o mundo. Mas segue definindo a felicidade de TODOS segundo a própria ótica de filósofo recluso sem amigos: a maior felicidade é a do intelecto, e quanto mais bem dotada é uma pessoa de atributos intelectuais mais e mais dispensáveis são as outras pessoas para a manifestação de sua felicidade.

Não seria mais interessante ele investigar as implicações dessas diferenças? Quais as conseqüências do fato de que uma pessoa pode encontrar a máxima felicidade justamente onde outra vê apenas aflições, e vice versa? Depois, não sei se o mundo era mais culto no tempo de Schopenhauer ou se ele tinha mesmo tão poucos amigos, mas como embasar essa idéia absurda de que os prazeres do intelecto são os prazeres máximos para TODAS as pessoas?! Eu, por exemplo, prefiro pizza.

Monday, September 14, 2009

Quanto vale a vida?


Não agradou a idéia publicitária do World Wildlife Fund em que uma comparação direta é feita entre o tsunami na Ásia e o atentado de 11 de setembro. Que cada morte ocorrida sobre este planeta deveria ter em torno de si um véu de singularidade que privasse de sentido qualquer tentativa de comparação, tudo bem. Mas até aonde vai a frieza dos números, comparações são possíveis, e têm lá sua utilidade. Não quero defender a campanha do WWF, até porque estética e bom gosto estão longe de ser boas especialidades de alguém tão permissivo, empolgado e tranquilo quanto eu. O que me chama a atenção é que as comparações numéricas são possíveis em inúmeros casos, e podem levar a questões qualitativas interessantes.

Quantas pessoas morrem anualmente de câncer? Vítimas da criminalidade? Vítimas de guerra? Vítimas de acidentes de trânsito? Vítimas de vazamentos nucleares? Vítimas de doenças tropicais? Vítimas da gripe asiática? Vítimas de crime passional? De velhice pura e crua? De fome? De sede? De acidentes de trabalho? De tédio? De terrorismo?

Que diferença faz, para o grau de impacto da notícia, quem é o morto e quais as circunstâncias da morte? Cinco milhões de mortes de civis em um campo de concentração significam o mesmo que cinco milhões de mortes de soldados em um campo de batalha?

A morte de um artista famoso é mais importante que a morte de milhares de pessoas desnutridas, famintas e mortas de sede?

Pensar nessas questões deve obrigatoriamente passar pela distinção entre investigação "do mundo como ele é" e "do mundo como ele deveria ser". Ideal contra empírico. Enquanto não há dificuldade em reconhecer que as mortes em um campo de concentração são muito mais horrendas que um número equiparável de mortes em um campo de batalha, por exemplo, a questão seguinte sobre o artista inevitavelmente ganha duas respostas. No âmbito ideal, pe difícil defender que a morte de um único artista deveria impactar mais o mundo do que a morte de milhares e milhares de pessoas sofrendo as mais devastadoras condições de vida. No âmbito empírico, contudo, Michael Jackson morrendo é muito mais pop que um bando de etíopes definhando.

Não interessa apenas quantos morrem. Interessa quem é o assassino. Interessa quais as circunstâncias da morte. E interessa quem é o morto.

A campanha publicitária da WWF foi uma péssima escolha, pois fere pudores instintivos que jamais permitirão que o objetivo final da peça seja compreendido além do orgulho que toda comparação entre diferentes mundos sucita. Bom mesmo para o movimento ambientalista no mundo seria um real tsunami sobre as linhas costeiras de Nova York, que certamente levariam os mais irracionais e emotivos impulsos da civilização na direção à qual tantos esperam em vão que as razões modernas se dirijam.

Certo estava o Ed Mort... O que diferencia o homem dos animais é que o homem sabe que é irracional.

Sunday, September 13, 2009

Percepções...

Ah, vai entender... As pessoas são assim, paradoxais, cheias de contraste, conflitantes numa perspectiva mais amplas, e é isso mesmo que significa dizer que são muito humanas.

Dou aulas de inglês para a Aline duas vezes por semana. É perto de um shopping, e também é perto do metrô Barra Funda. Tipicamente, as aulas terminam entre as 18:30 e as 19 horas. Ainda é cedo demais, segundo meu gosto, para desfrutar dos prazeres do transporte público. Assim, vou para o shopping, tomo um sorvete. Cinema, livraria. Pessoas diferentes andando pra lá e pra cá. Fico observando.

Aí pensei, outro dia, no óbvio. A praça de alimentação é sempre nos andares superiores. Claro: compras, nem sempre fazemos, mas alimentar-nos é algo forçosamente rotineiro mesmo que não muito disciplinado. Assim, com a praça de alimentação lá em cima, pelo menos as pessoas passam em frente às lojas, e de repente despertam interesse por algo.

Mas aí pensei numa outra coisa... Imagine que o mesmo efeito fosse procurado por meio de uma "regra". Suponha que a praça de alimentação fica no primeiro andar, logo na entrada. Mas existe uma regra que diz que você só pode comprar comida se primeiro subir as escadas e passar em frente as vitrines das lojas, até o último andar. O que você faria? Soa algo revoltante, inaceitável e sem sentido, não é? Mas veja só que curioso... A configuração dos shoppings atuais é uma artimanha para te fazer passar em frente às vitrines, mas não parece algo revoltante. Quando você entra no shopping, você passa pelas vitrines porque a praça de alimentação está lá em cima, não há outra opção, e nada de revoltante nisso. O fato de essa configuração ter sido uma deliberação ocorrida no passado não desperta o mesmo tipo de indignação que uma regra abstrata despertaria no nosso shopping imaginário com a praça de alimentação no térreo.

Daí a conclusão: não associamos muito fortemente as características físicas do nosso ambiente ao processo deliberativo que deu origem a ele. A pessoalidade é sentida quando se percebe a abitrariedade da imposição, não quando esta é camuflada por meio de coerções físicas inertes. Não sei se é uma tendência primitiva de entender separadamente ambiente natural e ambiente social, ou se é um indício de baixa consciência política do cidadão moderno... É claro que, neste momento, penso em coisas muito mais relevantes do que a posição da praça de alimentação de um shopping...

Wednesday, August 19, 2009

Pensar cansa


Because economics touches so much of life, everyone wants to have an opinion. Yet the kind of economics covered in the textbooks is a technical subject that many people find hard to follow. How reassuring, then, to be told that it is all irrelevant - that all you really need to know are a few simple ideas!

O trecho acima foi tirado do artigo The Virus Strikes Again, escrito pelo ácido Paul Krugman. Ele se referia às enxurradas de livros de economia fajuta que abundam nas prateleiras prometendo revelar os segredos que os acadêmicos insistem em negar. Sem muita ginástica mental, não é difícil perceber a semelhança com todas as outras fajutices preguiçosas que desmerecem as conquistas sólidas da ciência.

O que me chama a atenção no trecho acima, de qualquer forma, não é a clareza com que é exposta essa insistente tendência dos pseudos-experts em provarem-se corretos promovendo a descrença no resto do mundo. Interessante, na verdade, é a ênfase que transparece no papel das fracas emoções humanas nessa perpetuação de ignorância. "How reassuring..."...

How reassuring it is to know that at least a few people don't buy the easiest and most relaxing ideas as the truer ones...

Monday, August 17, 2009

Da proximidade do mundo


Li há uns tempos que os antigos entendiam que emoções como a raiva e o medo pertenciam ao conjunto de "emoções boas", enquanto a esperança era vista como uma "emoção ruim". Algo errado, não é? Não se você entender o conceito por trás dessa interpretação.

Para os antigos (antigos mesmo... refiro-me aos gregos de milênios atrás, e não aos empoleirados intelectuais medievais com suas sempre presentes mordaças mentais), bom era aquilo que aproximava as pessoas da verdade do mundo. Ruim era aquilo que afastava as pessoas dessa verdade. Ora, agora a definição acima fica praticamente inquestionável.

A esperança, afinal de contas, muito sedutoramente quer sempre nos afastar do mundo tal como este se apresenta. Sonhos de realidades melhores corroem o tempo que deveríamos usar para efetivamente criar alguma realidade melhor. Entorpecem e adormecem. Com efeito, embora em nossa antiquada e capenga moralidade cristã a esperança seja dicotomicamente entendida como uma emoção boa, tipicamente é ela a primeira operária a alicerçar as bases firmes para as mais duradouras e profundas decepções e os mais angustiantes sofrimentos.

E para aqueles que pensam que esta discussão se limita a sentimentalismos de sala de espera de cabelereiros, abra os olhos... Nosso descuido irracional frente aos impulsos da Esperança dá margem a enormes interferências na racionalidade da sociedade como um todo. Tome a política, a discussão sobre os problemas ambientais, guerras, e por aí vai. Todo o sofrimento pessoal que acaba impunemente seguindo história adiante devido aos nossos descuidos com as armadilhas da Esperança são apenas uma ponta do espectro. No outro extremo há toda uma gama de fenômenos coletivos oriundos da mesma base.

Em particular, no que se refere à racionalidade, o que são todas as pseudociências se não uma fuga esperançosa do mundo tal como este se apresenta para um mundo de justificações sem fim de que nossos mais calmantes e delirantes desejos de ordem e harmonia possam continuar existindo em eterna paz intocável?

Você por acaso já está com a impressão de que eu sou um negativista? Uma pessoa sem esperança de possíveis melhoras? Uma pessoa que diz "o mundo é assim, e pronto..."? Por que é que sempre confundem ceticismo com negativismo, realismo com conformismo? Enxergar o mundo como ele não não significa tolher na raíz todas as esperanças de mudança. Significa dar atenção apenas às mudanças possíveis, e cuidadosamente ignorar as outras. Não significa deixar de sonhar de forma irrestrita e devaneosa, significa conhecer a natureza lúdica destes sonhos e não priorizar nossas forças à concretização deles a menos que algum caminho realmente viável surja de alguma feliz descoberta. Não quero deixar de aproveitar todas as coisas boas que a Loucura de Erasmo nos leva a viver. Mas daí a entregar-se a cantos das sereias...

Voltando à ponta individual do espectro o benefício de uma visão mais realista é claro: uma atenção maior ao presente. Um olhar ao futuro e ao passado apenas no que diz respeito à produção de um presente mais e mais feliz. Felicidade sólida. Não com alicerces que se estendem a um futuro imaginário... Felicidade de experimentar desta pura e simples sensação de viver o mundo tal como ele é.

Tuesday, August 11, 2009

Existência auto-referida



Acredita-se em geral que tudo é, em princípio, permitido. Existe a lei para cuidar das excessões e definir o que é proibido, delimitar a fração do espectro dos comportamentos possíveis que não convém à sociedade e ponderar reações cabíveis a cada caso. Começo a duvidar disso. Sim, legalmente, burocraticamente, é assim que as coisas estão estruturadas.

Mas entre as leis escritas e a realidade da vida do dia-a-dia há um abismo enorme. Ainda mais do meu ponto de vista brasileiro, em que cumprem-se com afinco exagerado (exagerado?!) leis de trânsito recém lançadas, para em pouco esquecê-las no mesmo limbo em que ficaram todas as outras. A esse propósito, aliás, conheci estes dias o Robson. Robson era motorista de empresas de táxi especializadas em levar e trazer festeiros nas baladinhas de São Paulo, explorando um mercado que surgiu com a lei de tolerância zero no bafômetro. Disse que ele era, pois não é mais. O conheci no trem, ele pedindo informações, ainda desacostumado a este que é a tantos o mais costumeiro dos transportes. Em poucos meses, a lei avacalhou como inescapavelmente avacalham às leis sujeitas à erosão do tempo (o tempo aqui passa mais rápido?). Hoje Robson continua trabalhando nas baladas do Itaim, Moema e Vila Madá. Mas não como motorista. Vende isqueiros. Desses com pinta de isqueiros de luxo, mas ou contrabandeados ou falsificados. Ele os compra a três, quatro reais. Vende por vinte e cinco, trinta. Tá fazendo de quatrocentoas a quinhentos reais por semana. Sim, dá qualquer coisa entre mil e seissentos e dois mil por mês. Ficou interessado em mandar seu curriculum também? Não sei onde é o érre agá.

Recapitulando... o ponto importante: a lei já era. É difícil encontrar pontos de equilíbrio adequado. O que é fluido demais (muita falta de criatividade pensar na água?) cede ao próprio peso e não conserva nenhuma configuração interessante. O que é rígido demais acaba pela própria rigidez magnificando excessivamente o impacto do mundo exterior, submetendo-se à erosão, que pode ser lenta ou violenta, mas sempre inexorável. Pirâmides, lei-seca, essas coisas, físicas ou etéreas.



Como pode então a sociedade organizar-se tendo as leis como forças proibitivas que impedem as pessoas de sairem do curso normal de seu leque infinito de ações permitidas, se estas leis, para todos os efeitos práticos, são desconhecidas e invisíveis à grande maioria? O mistério não é o de entender por que é que as leis morrem, ou não funcionam, ou são invisíveis. Isso faz todo o sentido. O estranho é que, ainda assim, a sociedade funciona.

Ocorreu-me então que a lógica toda, no papel que fotografa o mundo numa foto de exposição lenta e enturvada, aparece aí espelhada daquela que realmente é. A sociedade tal como existe devido às nossas predisposições naturais... A civilização que decorre diretamente dessa nossa pitoresca forma de animalidade gregária, esta baseia-se na proibição total. Tudo é proibido, em princípio. Mas mais que isso, algo mais. Não são puras proibições, como as mecânicas proibições da legislação letrada. Como todas as soluções que a vida encontra por si só, pressionada pela crueldade do acaso, nosso instinto emerge com proibições condicionais. Tudo é proibido, a menos que...

Não é uma proibição ligada à penalização, como a dos tribunais. Os instintos são muito mais sutis e, por isso mesmo, penetram capilarmente muito mais fundo no tecido do dia-a-dia. Prepare-se para ler a palavra "proibido" de uma forma muito mais branda, como talvez "inibido" ou "desestimulado".

É proibido fazer as coisas sem motivo. Vontade? Vontade não é motivo suficiente. Vontade é pessoal. É preciso de coisas que provem uma conexão com o resto do mundo. É proibido dar uma aula, uma verdadeira aula, de alguma coisa pra alguém, se você não for professor. É proibido exibir seus dons artísticos sem que seja sob a redoma legitimante de um grande teatro. Sem que seja cumprido o estranhíssimo ritual do pagamento, ou ao menos da entrega de um raríssimo e vitorioso ingresso à entrada.

Estou exagerando? Você pode dizer que o princípio constitucional aplica-se sim. Que todos são livres, em princípio. Quer exibir seus dons artísticos por aí, porque de repente lhe deu vontade? Pode fazê-lo na rua, é livre. Há músicos que o fazem na frente do Municipal aqui de São Paulo até com uma certa improvisação na infra-estrutura... E se a grande maioria ignora esses exóticos lampejos de inspiração eclodente é tão somente porque falta a estes artistas a lapidação que só pela prática exaustiva e dedicação sistemática finalmente aparece. Argumentará você que estes artistas são ignorados não por alguma proibição instintiva, invisível, de olhar diretamente à arte que não chegou aos ouvidos legitimada pelos bizarros rituais de sociabilização. É uma boa tentativa. Mas o que dizer então do estranho dia em que o Washington Post enfiou o pobre Joshua Bell com seu violino, uma pequena raridade que veio ao mundo em 1713 pelas mãos do próprio Antonio Stradivari, numa estação de metrô, à paisana, pra tocar pro povão ali? Sim, Joshua Bell é um dos top-top na área dessa estridência aguda com cordas. Um sucesso só. Mas ali, assim à toa, foi ignorado pela ampla maioria. Curioso: crianças não ignoravam! (ficar adulto é introjetar as infinitas proibições da vida social?)

E o que dizer do dinheiro? O dinheiro é algo muito bizarro. Muito. Surgiu há muito. Surgiu e ficou, vingou, deu certo. Mas embora o dinheiro regule (ou desregule) a realidade material que continuamente criamos e destruímos, e embora ele já tenha tido como substrato principal duríssimos metais de inquestionável tridimensionalidade... embora tudo isso, o dinheiro é algo profundamente subjetivo, abstrato, estranho.

- Pago cinquenta mil para seus homens trazerem os tratores aqui e ararem todos os alqueires do meu latifúndio, para o próximo plantio de soja.

- Fechado!

E sem os cinquenta mil? Sem os cinquenta mil, não iriam. Era só ir lá e fazer o serviço, estavam livres pra isso. Novamente você vai ficar irritado. Sem dinheiro, como os aradores, benevolentes que fossem, comprariam mais combustível? Como comprariam alimento, cuidariam da própria vida? Mas repare que esta indignação só chuta o problema pra mais ali adiante, onde contudo ele conserva a mesma forma. Se todos fizessem exatamente o que normalmente fazem, sem contudo involver a transação monetária como normalmente o fazem, o mundo ainda assim seguiria da mesma forma. Dinheiro e mundo são coisas separadas. O primeiro é uma abstração, um número do qual insistentemente sempre falamos a respeito. O mundo em si, tecidos, hidrocarbonetos, relógios exóticos e celulares de gosto duvidoso, são materiais, materialíssimos.

Tá, sem dinheiro, essa sequencia inercial da normalidade ficaria sem trilhos. Dependeríamos demais da nossa infinitamente egoísta liberdade pessoal para continuar fazendo aquilo que é pertinente ao todo, à coletividade e tal. Interesses sem sentido explodiriam instanteneamente às alturas. O apaixonado por carros quereria não um ou dois populares, mas um de cada dos melhores do mundo. Dez de cada, por que não? E uma garagem enorme. O dono do plantio de soja lá de cima iria querer que arassem não só a soja dele... Mas que viessem muitos dos melhores tratores. Que fizessem talvez um museu da soja ali num canto, com a monotonamente heróica história da família dele, desde o primeiro Seu João da linhagem. Ou... Ou ia querer só sumir dali. Ir pra uma ilha paradisíaca viver do bom e do melhor, e que outros cuidassem da soja, que não era disso que ele gostava.

Ótimo. Descobri o dinheiro. Sou um gênio estúpido. Você é estudante de economia do primeiro ano e já está revoltado por ter perdido seu tempo chegando até aqui. Não não, esse papel regulador do dinheiro como moderador de nossas ambições eu já conheço, sei que é lugar comum. Há alguma materialidade aí, por assim dizer, mas ainda assim fico com um certo incômodo diante de tanta monetarização na vida. Até que entendo que digerimos isso facilmente porque, antes de mais nada, enquanto abstração o dinheiro é voltado à proibição. Sim, àquela proibição social de que falei antes, meio instintiva, irracional porém incontornável. Argumenta-se frequentemente de que ele funciona como um batente para o desfrute das possibilidades que se apresentam. Mas essa visão ainda é por demais ligada à idéia do agente racional, que há mundo sabe-se que não consegue raciocinar muita coisa de importante na economia. Fosse essa hipótese totalmente correta, mesmo o agente irracional faria mais esforço em aproximar-se de um conhecimento mais absoluto do todo e, no mínimo, prezaria mais pelo próprio dinheiro, sempre. Um mundo de pequenas curiosidades ficam sem explicação, entretanto. O que dizer do super competente porém ingenuo psicólogo que cobra trinta reais a consulta, e tem seu anuncio ignorado por toda sorte de surtados necessitados, enquanto um charlatãozinho qualquer cobra cento e cinquenta e tem logo que contratar uma secretária pra administrar a fila de clientes ávidos? É uma outra variante, aqui exposta ao contrário, da história do violinista. O dinheiro simboliza a proibição. E a proibição é o elo que nosso instinto social amarra ao resto do mundo. Uma proibição que depende do retorno à própria linguagem. Precisa-se pagar por um serviço pois do contrário o prestador não poderá pagar por suas necessidades.

Assim também acontece com as proibições sociais. A sociedade baseia-se em uma referência circular, estruturada sobre uma proibição instintiva existente em cada um de nós que impede que se dê sequencia, que se aceite naturalmente, qualquer ato que soe pouco social. A solidão genuína... ninguém sabe lidar com ela. Grupos de sozinhos, do contrário, com uma cultura particular, encontram seu espaço. A velha história da realidade social da vida do monge isolado, cujo isolamento, para se legitimar, depende de um diálogo estrutural com o resto do mundo.

Sei que está super chato ler até aqui. Mas, pense... Não é porque o texto está tãããããããão chato assim. Nem muito menos porque você não tem o hábito da leitura. Tenho certeza de que vez ou outra, pelo menos, você lê um livrinho com algumas centenas de páginas, beeeeeeem mais longo que esse blog e, eventualmente, quase tão chato quanto. Mas o que torna isso aqui particularmente chato é que, embora não se diga sem pudores por aí, é amplamente proibido escrever demais em um blog! O que eu não sei é QUEM é que proíbe...

Em tempo...

Link para a história do Joshua Bell no Washington Post


Thursday, August 06, 2009

As barreiras dos alunos...

A imagem que fazemos de nós mesmos é poderosíssima. Fico impressionado em ver como as pessoas facilmente bloqueiam enormes potenciais que para sempre ficam ali, adormecidos. E mais assombroso ainda é ver pessoas que conseguem levar a diante, com sucesso, um potencial que nem tinham... apenas não sabiam!

Há uns tempos voltei a dar aulas particulares, e estava pensando nesses dias que, durante as aulas, o que menos importa para mim, como professor, é o domínio técnico sobre o assunto ensinado. Em geral é muito mais relevante encontrar uma forma de fazer com que a aula seja interessante a ponto de que as barreiras pessoais dos alunos sejam ignoradas, sem que eles percebam, até que atinjam conquistas suficientes para, de repente, se convencerem de que são mais capazes do que imaginavam, e de que há algo de interessante no que está sendo estudado.

E voltei a pensar na importância da componente lúdica das aulas. O que me dá calafrios na espinha quando lembro de muitos professores que vi na faculdade. Ainda bem que me formei!

O paradoxal é que essas barreiras pessoais, embora sejam um problema quando alguém se inicia numa matéria nova, ou quando precisa estudar um assunto que não faz parte do seu universo de interesses, têm uma razão de ser. São úteis sim. Ajudam a focar a vida. Definem a pessoalidade de alguém. Não há razão lógica por trás de afirmações do tipo "não gosto de matemática" ou "não levo jeito pra inglês". Se alguém lhe disser "mim nummm injgleiz jeito", beleza, você já entendeu que a pessoa tem problemas, não leva jeito nem pra português e tal... Mas de onde vem essa certeza arraigada de pessoas que dizem que não levam jeito pra isso e pra aquilo? De lugar nenhum; vem da própria afirmação. É algo que passa a ser concreto quando é afirmado. É a definição da individualidade de cada um.

Juntando tudo... às vezes o trabalho de um professor, como quem não quer nada, é ajudar as pessoas a aceitarem uma nova idéia de si. Já imaginei um divã do lado da lousa...

Tuesday, August 04, 2009

Tilt na física


Importa mesmo tanto assim aos físicos saber se a teoria dos múltiplos universos, apelativamente sugerida por Hugh Everett III em sua tese de doutorado apresentada em Princeton, é correta ou não? Ora, talvez ela não seja correta no nosso universo, mas o seja em algum outro. Talvez logo mais venhamos a nos separar em universos distintos, de modo que podemos gastar o que nos resta de tempo juntos com alguma questão mais interessante, não é?

Sites e materiais por aí:
Artigo sobre a vida e o trabalho de Hugh Everett III

Um FAQ sobre a teoria dos universos múltiplos

E, pensando mais um pouco... a idéia de múltiplos mundos não poderia ter surgido antes em qualquer ponto da história, e aí mesmo rejeitada? Afinal, não interessa se a realidade se divide em multiplicidades inacessíveis entre si aos viajantes de cada caminho particular. A tarefa da ciência é entender a realidade desse mundo em termos dele mesmo. Não me interessa se o gato estará talvez morto neste mundo e vivo num outro, talvez o contrário. Interessa saber se, neste universo, o gato está vivo ou morto.

Falta um chefe aos físicos. Se eu fosse chefe dos físicos do mundo, atrasaria os salários. Às reclamações, retrucaria: "em algum outro universo, não se preocupem, os vencimentos estão em dia!". E ainda me defenderia dos protestos subseqüentes: "não podemos deixar de realizar a função de onda completa de todos os eventos possíveis em torno dos salários. Nesse universo, vai atrasar, paciência."

Bem, talvez em algum universo paralelo eu realmente seja o chefe dos físicos do mundo e esteja agora mesmo fazendo essa piadinha besta... Talvez, num outro universo, vocês até tenham achado graça!

Sunday, August 02, 2009

Novos mundos


Quão difícil é achar um pequeno planeta que orbita silenciosamente em torno de uma estrela qualquer, dentre bilhões delas, a muitos anos luz daqui? Para ter uma idéia dessa dificuldade, só mesmo conhecendo os métodos que são usados na empreitada. Uma pequeníssima variação no brilho da estrela, se acontecer periodicamente, pode ser indício da passagem de um planeta na frente da estrela. Problema: o método só serve para o raro caso em que a Terra está contida no mesmo plano que a órbita do planetinha. Outro método: detectar mudanças na velocidade radial da estrela com relação à Terra. Se há um planeta orbitando a estrela, então o centro de rotação do sistema não coincide com o centro de massa da própria estrela, de modo que às vezes ela está se afastando, às vezes se aproximando de nós. Agora a o planeta não precisa mais passar exatamente entre a Terra e a estrela, mas o método é tão menos preciso quanto mais perpendicular for o plano da órbita com relação à nossa linha de visada. E, convenhamos, esta técnica requer uma precisão e tanto!

Tecnicidades do problema à parte, convenhamos: vivemos em uma era em que é realidade a busca por outros planetas. Eles estão sendo catalogados e já somam centenas. Dada a história da vida na Terra, é um privilégio e tanto. Tudo bem que há outras coisas pra se pensar também. Aquecimento global, guerras, ou o Santander que está me cobrando uma fatura enorme de um cartão que nunca usei na vida. Não sei se há vida lá fora. Mas a vida aqui na Terra é bem exótica.
legenda da imagem acima: The discovery Doppler data of the planet orbiting Gliese 436. Doppler measurements of Gliese 436 are shown versus time, during an orbit cycle (2.64 days), obtained at the Keck 1 telescope. The apparent orbital period of the planet is 2.64 days and the mass of the planet is 22.7 Earth-Masses. The discovery was made by the California & Carnegie Planet Search team, described in two published papers by Butler et al. (2005) and Maness et al. (2007) .

Wednesday, July 29, 2009

Manifesto contra a seriedade


Há quem diga por aí que eu sou "totalmente miscível": consigo me enturmar com as mais diferentes pessoas. Isso não quer dizer que eu necessariamente goste de todas elas. Descobri que eu realmente não gosto de gente séria. Levou um tempo para que a descoberta fosse feita, porque eu nasci com esse defeito congênito de achar que acho tudo interessante, de demorar para reconhecer minhas próprias rejeições, de ser legal demais. Finalmente, está claro: gente séria eu não agüento.

Alguns ficarão horrorizados com isso, como se eu estivesse defendendo a avacalhação do mundo. E aí já incorrem em um primeiro engano. Não, seriedade e competência são coisas que definitivamente não estão associadas. Há muita gente séria demais na manutenção da própria incompetência, aliás. Posso defender esse ponto de vista de um modo meio filosófico-dogmático ou então neurologicamente mesmo. Qualquer livrinho for dummies sobre mente e cérebro que se acha por aí hoje em dia vai deixar claro que o alicerce da mente é emocional. Aprende-se melhor coisas vividas sob contrastes emocionais do que coisas vistas com indiferença fria.

Além do mais... se é para tratar seriamente de algo, tratemos, e alguém me diga, seriamente: que razão haá para não rir de tudo, desde que não se cause com isso prejuízo aos outros? Note que todas as razões que se podem apresentar aqui são (1) subjetivas e (2) apoiadas no estereótipo da seriedade. Razões como "rir muito é besta", ou "certas gracinhas são meio idiotas" não depõe contra a piada, depõe contra o sério. Dizem apenas "EU sou uma pessoa séria demais para ser feliz assim". Quem diante das opções "rir ou agir séria e rabugentamente" escolhe a segunda opção claramente não consegue colocar o bem-estar pessoal acima das imposições da manutenção de uma falsa imagem perante o mundo. Que sofra com isso até o fim dos dias.

As pessoas mais competentes que já conheci são também as mais divertidas. Há, é claro, vários tipos de humor. Há os humores risonhos e os fatalísticos, mas estes últimos não devem ser confundidos com seriedade, jamais. Uma consideração seca e fria, em tom exageradamente catastrófico e feita a rosto grave, que denote por absurdo a inadequação de alguma coisa, convenhamos, é uma ótima piada. Gente séria é ponderada e diz coisas pertinentes, lógicamente pertinentes, apenas.

E aqueles que não se contém dentro de toda sua carapacenta seriedade e soltam comentários como "ai, que coisa idiota!" diante de alguém feliz fazendo alguma piadinha ou alguma gracinha? Idiota por que? Qual a razão para não ter sido feliz nesses segundos que se passaram? Muitas vezes, argumentam, a piada não foi original, seguiu a linha de sempre, foi pouco criativa. Ora, eis aqui evidências de um traço que costuma estar muito presente na peçonhenta seriedade: o elitismo estético. Como se só se fosse encontrar prazer ao escrever os que escrevem grandes clássicos. Como se só encontrassem prazer ao cantar os grandes tenores. Como se só encontrassem prazer na pintura os grandes gênios da arte. Por isso é que Nietzsche disse que "a maturidade de uma pessoa consiste em encontrar novamente a seriedade que tinha quando era uma criança a brincar". Uma criança brincando leva a brincadeira muito a sério e com competência, nem por isso com chatice e sem humor.

Não vou rejeitar os chatos seriões da minha vida só porque descobri que os odeio. Vou continuar dando atenção a eles, pois interagir com eles é sempre uma forma de lembrar que há uma boa razão para não ser como eles. E, por outro lado, nunca vi nenhuma boa evidência de que a vida é uma coisa muito séria.

Monday, July 20, 2009

As forças do além e nosso lugar no mundo

Por que algo como a ética precisa estar incrustrado nas leis profundas do universo que regem das pedras às nuvens de poeira cósmica por todos os cantos do universo? Por que algo de definição tão abstrata e subjetiva e inerentemente egoísta como "o bem" precisa estar previsto no grande Projeto da Existência?

Sou ateu. Até um tempo atrás, eu diria ser agnóstico. Politicamente correto e cientificamente prudente. Afinal, honestamente, se por um lado não podemos provar a existência de deus, também não podemos provar sua inexistência. Mas decidi pular do muro, e escolhi o lado: ateu declarado.

Mandei às favas a prudência lógica? Bem, ainda que seja muito improvável que uma hipótese surgida em nossa precária cultura com a função de acalmar nossos anseios afetuosos esteja correta acerca da existência de um criador, não, não mandei às favas a prudência lógica. Continuo admimtindo a possibilidade teórica de que exista um deus por aí, de qualquer tipo que seja. Minha escolha pela bandeira ateísta se deve contudo à idéia de que é preferível errar nesse sentido: ainda que eventualmente exista um deus, continua sendo preferível a visão ateísta das coisas.

Se existe um deus por aí, as religiões certamente não estão muito preocupadas com isso. Religiões dizem respeito a valores humanos, a esperanças e carências humanas, e não à interpretação da realidade e ao entendimento das forças superiores, quaisquer que venham essas a ser. Sempre têm mais força nas religiões palavras escritas ou ditas por um homem de importância na mitologia ou hierarquia religiosa do que as manifestações da própria natureza, que, se deus existe, não são outra coisa se não a própria manifestação de deus.

Newton acreditava em deus e escreveu seus Principia buscando entender a obra do criador. Newton nesse sentido foi de uma religiosidade mais sóbria que a de qualquer papa que já vi por aí. Bíblia pra que, se deus está em toda a parte e podemos fussar no mundo e descobrir sua estrutura e seus desígnios?!

Estamos melhor sem deus. Sem deus, a vida está por nossa conta e devemos admitir isso. A felicidade continua sendo desejável pela simples razão de que nos sentimos bem estando felizes e seria estúpido agir contra isso, principalmente se não há uma eternidade pós-vida pra reconsiderar a coisa toda. Desejos abstratos como a paz mundial e o bem de todos continua tendo seu lugar, com bases lógicas, mas sem deus por perto pra receber nossas preces covardes, somos forçados a reconhecer que a concretização ou não desses desejos depende só da gente. E a inexistência de forças sobre-humanas lutando eternidade afora facilita também a tarefa: se há um inimigo, não é o diabo ou um anti-cristo que seja, mas outros homens ocupando o mesmo aqui-e-agora que a gente neste ponto da história. Identificando o inimigo fica mais fácil combatê-lo.

Portanto, se você leva a sério seus valores religiosos, por questões práticas, para obter o melhor desse mundo, deixe de lado sua crença em deus e comece a agir como se só houvesse essa vida para fazer tudo o que interessa. Se deus existir, ele entenderá.

Friday, July 17, 2009

O mais humano dos anseios


Em 1916 um marinheiro britânico viu uma garrafa boiando no Atlântico Norte. Recolheu-a, abriu-a e leu a última mensagem enviada do Lusitania antes de seu afundamento, com 1.198 passageiros a bordo: "Ainda no convés, com umas poucas pessoas. Os últimos já partiram. Estamos afundando depressa. A orquestra continua a tocar, bravamente. Alguns homens perto de mim estão rezando com um padre. O fim está próximo. Talvez este bilhete seja..." E terminava aí.

O Lusitania, bem o sabe esta vasta internet, foi torpedeado no correr do sétimo dia de maio de 1915. Afundou em meros 18 minutos, próximo ao litoral sul da Irlanda. Dezoito minutos entre a explosão e o afundamento, e alguém procura uma garrafa e deixa uma mensagem...

No famoso mito da caverna, presente na obra "A República", de Platão, o chocante não é a descoberta de que há um mundo além do mundo de sombras... O perturbador é que o sortudo que faz essa descoberta decide voltar à caverna e tentar convencer todos os outros de que há mais no mundo, por mais impossível que seja a tarefa...

Há algo mais humano do que esse desejo de comunicar ao outro? Ainda que além de todas as possibilidades, ainda que além da nossa própria existência? Nossa voz parece carregar em si um pouco de nossa própria vida, eis que uma garrafa jogada ao mar salva um pouco o náufrago, ainda que a água esteja subindo rápido demais.

Thursday, March 19, 2009

Boa pergunta!

Com a palavra, Brillat-Savarin:

You first parents of the human race... who ruined yourself for an apple, what might you have done for a truffled turkey?

E, no clima de citações, e para não perder a deixa de um recente fim de era Bush, ninguém menos que Groucho Marx:

Military justice is to justice what military music is to music.

Admita: contundente!

Sunday, March 08, 2009

Essa igreja...

Dom José Cardoso Sobrinho é arcebispo de Olinda e Recife. Por aquelas bandas, há uns dias, aconteceu esse bizarro caso em que uma menina de nove anos, após ser estuprada pelo padrasto, engravidou de gêmeos. Para uma menina de apenas nove anos, certamente tratava-se de uma gravidez de risco, e procedeu-se com uma operação de aborto. Dom José Cardoso Sobrinho ficou horrorizado. Aborto é um atentado contra a vida. Segundo o Estadao, Dom José Cardoso Sobrinho disse que o aborto é mais grave do que o crime de estupro e pedofilia cometido contra a menina.

Quanto à pedofilia, não me espanta. Nada mais esperável do que a igreja não julgar essa falta como algo assim tão grave. Força do hábito. Mas, com relação ao estupro, confesso ter ficado surpreso. Será também força do hábito?

Entendo a preocupação com a vida do feto. Dos fetos, nesse caso. Queria é entender em que momento devemos esquecer da vida da menina de nove anos, que já está aí, vivinha... Será que a igreja faz uma conta simples? A vida de dois fetos contra a vida de uma única menina: dois contra um. Ou será que confia-se em Deus para o sucesso da concepção de risco? No primeiro caso, seria uma séria falha da razão ao enfatizar demais um único lado da questão, e no segundo caso um acidente metafísico na interpretação do mundo. Se Deus existe ou não é algo discutível, embora sempre em discussões inconclusívas. O que está acima de discussão é que há leis muito bem estabelecidas aqui neste mundo, que pode ser Dele ou não, não importa. E esse regular andar da carruagem nos permite ter muita certeza de que essa gravidez tinha enormes chances de levar a menina à morte.

Mas acho que isso tudo não exige muita discussão... A igreja sempre trabalhou muito bem para minar todas as oportunidades de razoabilidade que o acaso lhe oferece. Acontece que tem mais essa aqui. Aqui no Brasil, excomungaram a mãe da menina e os médicos que procederam o abordo.

Minha primeira questão, e deixo claro que é só especulação, não estou bem informado a respeito: excomungaram também o padrasto, o estuprador?

Minha segunda questão: alguém perguntou aos excomungados se eles se importam? A igreja anda tão incapaz de se reservar ao seu papel de reflexidade metafísica sobre a existência e a moral de forma não danosa à vida humana, e vem reincidindo em falhas desse tipo há tantos séculos, que eu teria o maior orgulho de ser excomungado! Que alívio maior existiria para alma do que saber que as forças do mal oficialmente o declararam um "não-igual", "não-membro"?

Bem aventurados os excomungados, pois deles é o reino dos céus. Ou, no mínimo, a paz na Terra, o que, convenhamos, já não é pouca coisa...

Tuesday, January 20, 2009

O limite final...


Gosto da madrugada para várias coisas. Dentre tantas, gosto de ler no meio do silêncio sem fim da madrugada, eventualmente ao som de alguma das músicas da minha comprometedora mp3teca. E, pensando bem, acho que a madrugada gosta que eu me dê às leituras assim... Tanto é que vez ou outra me presenteia com maravilhosas surpresas. Não se deixem enganar pelo tom emotivo: não, não achei a poesia definitiva ou o conto derradeiro. Pelo menos não até agora. Achei mesmo foi uma preciosa coleção de comentários sobre um assunto de primeiríssima importância (desde que você já esteja devidamente abrigado, alimentado e saudável): os limites absolutos do conhecimento.

Em maio de 1994 um workshop foi realizado pelo Santa Fe Institute, com o tema Limits to Scientific Knowledge. Ao final do evento, os participantes concordaram que a conversa deveria continuar. Concordaram também em enviar, cada um, uma página com suas opiniões pessoais sobre o tema. O documento que reúne esses diversos comentários pode ser acessado nesse link. Adoraria comentar mais longamente, já agora, diversos pontos dos comentários. Mas depois de meia madrugada lendo, ocorre que me vem à mente essa ótima idéia: dormir um pouco. Boa noite!

Friday, December 12, 2008

Nunca diga "não posso"

Vídeo imperdível:



Dica da minha honorável e lovely little sister. Bjo sisteeeeerrrrrrrrrrr!

Monday, December 08, 2008

Sociodinâmica da irracionalidade


Suponha que você é um matemático ou um físico (é uma suposição apenas, não fique triste!), e deseja modelar a queda de objetos. Logo (ou não tão logo) você descobrirá que a resistência do ar impõe complicações consideráveis às suas equações. Vamos ser práticos então... Basta escrever em algum canto: "desprezando-se a resistência do ar...", e continua-se trabalhando numa boa. Consegue-se assim isolar parte da realidade e isolá-la como se fosse independente do resto. Com efeito, muitos dos resultados a que se chegam são válidos, tanto é que servem perfeitamente para descrever o comportamento de naves especiais e afins (em um ambiente onde, efetivamente, não existe atrito com o ar para atrapalhar a coisa toda). Contudo, deve-se lembrar que as conclusões a que se chegam após certas simplificações não são válidas para todo o campo da realidade. Um corpo solto na atmosfera não cai com aceleração constante: eliminar o atrito com o ar das equações não o elimina dos fenômenos que nos cercam!

Mas coisas caindo pelo ar não são o que me interessam no momento. Quero falar é de uma outra área onde o procedimento de modelar a realidade assumindo uma infinidade de simplificações de modo a construir algo passível de análise é muito mais despudoradamente empregado: a sociologia. A primeira parte do famoso "Leviatã" de Hobbes é chamada "O Homem". Nesta seção o pensador tece seu modelo ideal. Não é, de modo algum um tratado científico com pretensões de descrever como o homem REALMENTE é, e eu me espantaria se descobrisse que o autor teve essa intenção (estaria tão enganado...). É apenas uma formalidade necessária ao procedimento de análise, é porção do raciocínio do autor que alerta: "vou assumir que os homens são ASSIM, e vou basear minhas conclusões em cima desse modelo com todas as simplificações e aproximações que estão aí implicadas!".

É inevitável que se proceda dessa forma. Assim como nas análises sujeitas à resistência aerodinâmica, as análises sujeitas a toda sorte de variações sociais é por demais "intratável". Não obstante, precisamos de um norte para saber "para onde estamos errando". Quando eu calculo o tempo de queda de uma bolinha de papel sem levar em conta a resistência do ar, o resultado será uma superestimativa ou uma sub-estimativa do tempo real, dadas as simplificações feitas? Quando avalio a importância da educação, dos esportes, dos investimentos em infra-estrutura, quando reflito sobre os perigos de regimes ditatoriais, quando tento estimar as chances de auto-destruição da humanidade ou quando vislumbro o triunfo da razão científica sobre a cegueira dogmática, qual erro estou cometendo?

Estou pra descobrir algum tipo de interação social, que seja no âmbito pessoal ou no âmbito das interações institucionais, que seja plenamente condizente com a "hipótese do agente racional". Sabemos por evidência antropológica direta que o homem no estado de natureza não é selvagem e perigoso como assumido por Hobbes, e sabemos também que as instituições modernas não emergem de um "acordo de cavalheiros", um contrato social feito no dia em que as pessoas sentaram em círculos em volta da fogueira, ponderaram sobre as possibilidades que tinham em mãos e concluiram sobre as melhores atitudes a tomar dali adiante. Essas historietas produzem uma coerência discursiva que é extremamente agradável à nossa mente sedenta de explicações, mas nem por isso são verdadeiras.

Em 14 de julho de 1789 ocorreu a queda da Bastilha. Em 7 de setembro de 1822, num pity histórico, Dom Pedro proclamou a república no Brasil. Em 29 de agosto de 1958 nascia na cidade de Gary, Indiana, um jovem chamado Michael Jackson. E em 25 de abril de 1983 nascia em São Paulo um pequeno notável chamado Adriano Axel. E em que dia da história foi assinado esse tal de Contrato Social? Santana, Janis Joplin e Joe Cocker estavam presentes no Festival de Woodstock. Benjamin Franklin, Thomas McKean e Thomas Jefferson são alguns dos signatários da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Quem são os signatários do famoso Contrato Social? Em que museu está o tal documento? Ou então, antes que critiquem o exagero de minha incompreensão desta abstração analítica, como pode uma nação realmente se estruturar sobre uma Constituição assinada por algumas dezenas, sendo constituída por milhões e milhões de habitantes que não fazem a menor idéia de qual é o conteúdo do texto constitucional?

A realidade é profundamente diferente dos modelos que temos. E, no que se refere às teorizações sobre os nossos modelos sociais, não sei se há uma idéia clara sobre "para onde estamos errando, se para mais ou para menos". Só sei que desconfio mais e mais de explicações plausíveis demais, pois essa plausibilidade implicitamente assume uma racionalidade nos bastidores, coisa que as evidências, seja na História das Grandes Potências Internacionais, seja na imbecilidade escandalosa do meu Professor de Administração, colocam seriamente em dúvida.

PS: Depois explico mais sobre a imbecilidade do meu Professor de Administração. Infelizmente meu dia não é infinito e esse post já ficou grande demais segundo a métrica blogueira convencional.

Saturday, November 22, 2008

Cadeias de acordes


Devido à matéria de Processos Estocásticos, que estou cursando nesse semestre, tenho que estudar cadeias de Markov. O contexto em geral é o de aluguel de carros em locadoras com múltiplos pontos de atendimento, ou de navios operando em rotas de cabotagem com suas centenas de conteineres, ou então simplesmente a análise de filas do que quer que seja... Resumo: você não morre de emoções nessa aula.

Mas, fussando na net em busca de um material melhor, descobri outras aplicações interessantes para a tal cadeia de Markov... Há aplicações em diversas áreas. Quando estava fazendo meus primeiros estudos, ainda no problema da locadora de carros, notei que minhas análises de equilíbrio levavam a gráficos completamente análogos a gráficos de reações de equilíbrio químico. Sim, cadeias de Markov também podem ser aplicadas à análises químicas!

Não bastando isso, achei o mais interessante: uso na música!

Agora deixem-me tentar esclarecer como a coisa toda funciona... Cadeias de Markov nada mais são do que conjuntos de previsão para o estado futuro de um sistema, em termos probabilísticos, baseando-se no estado atual e, eventualmente, também em alguns estados passados. No caso dos tediosos exemplos com fila, uma cadeia de Markov diz qual é a probabilidade de que a fila aumente ou diminua dado o número atual de pessoas nela (seu estado). No caso musical, portanto, uma cadeia de Markov diz qual é a probabilidade de que, por exemplo, a próxima nota musical seja um Lá dado que a atual é um Sol. Vamos a alguns dos materiais disponíveis na net...

Digital Music Programming II: Markov Chains - Aqui estão os conceitos básicos para a criação de músicas a partir de cadeias de Markov, com uma grande vantagem: o código fonte de um programa está disponível!

Modeling Music as Markov Chains - Composer Identification - Neste trabalho de Yi-Wen Liu, de Stanford, são estudadas cadeias de Markov de primeira ordem para a distinção entre diferentes compositores. Como as cadeias serão usadas para avaliar uma obra ainda "desconhecida" pelo algoritmo, é óbvio que os resultados não serão exatos, de modo que a distinção será baseada na identificação da matriz que corresponde a um menor desvio. Assim, uma métrica para desvios é proposta.

Markov Chains as Tools for Jazz Improvisation Analysis - David M. Franz não deixou barato. Jazz, John Coltrane, solos e cadeias de Markov de terceira ordem. Com um escopo tão grande, é claro que não se trata de um simples paper... Esta é uma tese completa que com suas detalhadas 92 páginas é uma leitura mais que recomendada para um melhor entendimento dessa área.

Granular Synthesis of Sounds Through Markov Grains with Fuzzy Control - Novamente focando-se na área da criação musical, este paper faz uso de um processo chamado de "síntese granular". Os grãos podem ser entendidos como "pacotes" com elementos mais detalhados em seu interior. Assim, as cadeias de Markov selecionam uma sequencia de grãos, enquanto uma lógica fuzzy define o conteúdo de cada grão. Um dos autores desse trabalho é Adolfo Maia Junior, da UNICAMP. E daí? E daí que pode-se tirar dúvidas em português com ele ou até arranjar uma conversa, com muito mais facilidade, caso você queira entender mais desse trabalho.

Esse post vai terminando por aqui, mas de modo algum o assunto... Há muito mais para fussar e para entender na net de trabalhos feitos nessa área. E depois, claro, há muito o que brincar com programinhas próprios também...

Friday, November 21, 2008

Quero minha Rep de volta!

Casualmente navegava eu pelo Guia dos Curiosos, e acabei achando um programa bem interessante na "TV Curioso":










É claro que a reportagem que mais me chamou a atenção foi a do turismo de sofá. Sei que muita gente tem ressalvas com a idéia, mas minha única sensação negativa ao ver a reportagem foi a de não morar mais em minha república. Estivesse lá ainda, já teria feito meu cadastro no Couch Surfing com certeza.

A idéia de sair viajando por aí e poder se hospedar na casa de outras pessoas... O risco de encontrar alguém chato no caminho é mega minimizado, pois se a pessoa participa da comunidade Couch Surfing as chances de ser uma pessoa pouco dada a novas amizades é mínima. E com isso conhecer realmente um pouco das pessoas locais, ainda que numa amostra bem viciada contendo só "a melhor parcela", mas tá valendo.

E a idéia de receber viajantes também... Eu já sou naturalmente receptivo com viajantes, e isso muito antes de ter ouvido falar desse projeto. Sou receptivo com viajantes em geral, mas viajantes estrangeiros tem um atrativo a mais também. Só como observação, meu ânimo extra ao encontrar estrangeiros nada tem a ver com uma dicotomia preferencial no sentido Brasil vs. Exterior. É só uma percepção de que "quanto mais longe, mais diferente, mais exótico, mais inédito".

Quando fui morar em República pela segunda vez minha primeira aquisição foi um par de colchonetes. Não que eu precisasse de tantos... Era só uma reserva para garantir um mínimo de habitabilidade para visitantes esporádicos e aleatórios. Não fosse minha 25% consangüínea titia tornar meu lar uma ameaça à diplomacia internacional, já teria me inscrito daqui mesmo. Quando começar o turismo de marcianos aqui pra Terra, ou de habitantes hectoplásmicos de Alfa Centauro, acho que me empolgo tanto que além de colchonete dou um jeito de improvisar um quartinho num canto também!

Visite o site. Leia sobre o projeto, veja as fotos das pessoas, os perfis... Se não viu o link lá em cima, tente de novo aqui.