Showing posts with label Fichamentos. Show all posts
Showing posts with label Fichamentos. Show all posts

Monday, June 25, 2018

Considerações evolutivas sobre a homossexualidade

image

Da pág. 137, edição de 1999, em livre tradução:

O tabu contra a homossexualidade é especialmente interessante. Não há explicação biológica de aceitação geral para a homossexualidade e superficialmente esta prática nã parece ser adaptativa. Contudo, acumulam-se evidências de que existem predisposições inatas ao comportamento homossexual. Assumindo que este seja o caso, os tabus do passado teriam, paradoxalmente, favorecido a sobrevivência desses genes por meio de uma pressão para que as pessoas que os carregam, mesmo contra o desejo delas, venham a se casar e ter filhos.

Isso sugere uma interessante predição para o futuro. Conforme a transmissão horizontal [de memes] aumenta, esse tabu deverá perder sua força e pode vir a desaparecer, como de fato ocorre em muitas sociedades. Homossexuais estarão assim livres para terem relações sexuais apenas com outros homossexuais, e para terem relações de longa duração com pessoas do mesmo sexo, sem virem a ter nenhum filho biológico. O efeito de curto prazo é um comportamento homossexual mais pronunciado e uma maior aceitação por parte de todos, mais o efeito de longo prazo pode ser o da redução dos genes para a homossexualidade.

Saturday, May 09, 2009

Tortuoso caminho entre as montanhas


Como o cérebro de humanóides primitivos foi aumentando de tamanho ao longo do tempo geológico até chegar ao design do homem moderno? Para responder esta interessante questão Sergey Gavrilets e Aaron Vose, da Universidade do Tennessee, adotaram a abordagem da simulação computacional. Nada melhor do que simular uma população de 50 a 150 indivíduos (tamanho compatível com grupos de hominídeos do passado, até onde sabemos). A simulação que os dois fizeram leva em conta evolução genética (orientando, primordialmente, o tamanho e a capacidade cerebral), bem como a evolução memética (evolução cultural de um conjunto de idéias, que é limitada pela capacidade cerebral).

Uma das observações interessantes do estudo é que num primeiro momento qualquer aumento da capacidade cerebral em humanóides primitivos é anti adaptativo! Isso porque uma capacidade cerebral maior justifica-se apenas na eventual ocorrência de memes vantajosos, mas não há a menor razão para supor que o sumples surgimento de um cérebro como uma capacidade marginal melhorada implicará na ocorrência de algum meme benéfico. Somos assim confrontados com um fato da natureza: a evolução não opera jamais sobre um ótimo local. Os pontos em que as populações são evolutivamente estáveis apresentam sempre uma distribuição em torno do ótimo. Ou seja, inicialmente, os humanos com cérebros maiores tratavam-se de um distanciamento do ótimo evolutivo, não de uma marcha em direção a ele, e foi só por conta de um outro evento completamente inesperado e imprevisível (a ocorrência de memes vantajosos) que cérebros maiores mostraram-se uma vantagem adaptativa.

É preciso ter em mente que esta é uma explicação por demais simplificada. Não faz sentido pensar em cérebros maiores como "computadores mais potentes" a espera de softwares melhores para executar. No mundo real, cérebros maiores poderiam conferir vantagens aos "softwares" já implementados em nossa mente, principalmente aos relacionados com o convívio social e memória (onde foram vistos predadores, onde foi encontrada água da última vez, etc).

De qualquer modo, por simplificado que seja, o artigo de Gravilets e Vose mostra que o surgimento de cérebros avantajados no Homo sapiens representa um processo de migração de um "máximo evolutivo", um ponto em que um design ótimo, por assim dizer, encontra-se estabelecido, para um outro ponto completamente distinto onde uma estratégia diferente passa a ser predominante.

Um outro ponto que serve de interessantíssimo ponto de partida para discussões sobre nossa sociedade atual:

However, the complexity of memes present in the population does not increase but, on the contrary, decreases in time (data not shown). This happens as a result of intense competition among memes: whereas complex memes give advantage to individuals on a longer (biological) time scale, they lose competition to simpler memes on a shorter (social) time scale.

Saindo do modelo simplificado e pensando no nosso mundo, as questões são: até onde a cultura geral da sociedade pode evoluir? Há limites para o quanto é possível difundir um bom sistema educacional? Nossa evolução científica e cultural estaria condenada a algum regresso incontornável após atingir algum "máximo" num determinado momento? Ou continuaria a cultura da sociedade como um todo a evoluir porém com a cultura dos indivíduos, tomados um a um, tendendo a regredir? Ou seja, nossas "forças cognitivas" passariam a se alojar cada vez mais nas estruturas institucionais e cada vez menos nas habilidades individuais de determinados experts? O artigo não faz esse salto analítico, que é meramente filosófico, especulativo, e muito difícil de ser abordado quantitativamente. Mas que são questões interessantes, isso são!

Outros grifos do artigo:

The negative effect of the number of loci L on the characteristics of cognitive abilities is explained by the fact that more loci means weaker selection on each individual locus and, thus, weaker evolutionary response. - Talvez esse efeito seja facilmente verificável nos algoritmos de projeto genético que estou habituado a utilizar para projetos de Navios ou Aviões. É uma justificativa para manter o número de parâmetros de projetos tão pequeno quanto possível, a fim de acelerar a convergência à solução final.

[...] throughout most of human history, success in social competition translated into reproductive success with the most powerful men enjoying a disproportionate share of women and offspring [...] [A]s the extent to which social success translates into reproductive success declines in modern societies, cognitive abilities are expected to be significantly reduced by natural selection. We also expect that as the number of memes in the population dramatically increases, learning ability will decrease further (because given a sufficiently large exposure to memes, they will be learned even by individuals with relatively low learning abilities) - Penso imediatamente na Luciana Gimenez, o que talvez implique que esse processo já vem se desenrolando há algum tempo...

Quem quiser ver o artigo no PNAS, é só clicar aqui.

Monday, January 12, 2009

Entendendo as micaretas


Ano novo, tags novos, como já vocês já veem percebendo(vêem? ... não não... apenas veem...). Aliás... Estou ainda totalmente por fora das novas normas do Português (Portugues? Sei lá!) Vou ter que estudar isso com calma... e até lá, continuo gramaticalmente ilhado em meados de 2008, periodo confortável em que minhas tremas reinavam tranqüilas! Sem mais delongas, o tag da vez: "Fichamentos", onde vou tagarelando um pouco sobre minhas leituras da semana.

E nesta semana retomei a leitura de uma das seis edições da revista Tempo Social que tenho, impressas, em minha coleção. (Quem quiser acessar as edições digitais, basta procurar aqui no SciElo) Li o interessantíssimo artigo de Benoit Gaudin, entitulado: "Da mi-carême ao carnabeach - história da(s) micareta(s)".

Se você pensa que as micaretas são festas modernas, que surgiram espontaneamente depois que você fez 14 anos e seu pai começou a deixar você viajar pra Porto Seguro com o pessoal do colégio, engana-se! A gênese das micaretas volta na história até o tempo em que as relações culturais Brasil-Europa ainda eram muito mais estreitas do que atualmente (talvez seja mais apropriado dizer que eram muito mais unilaterais), e a abolição da escravidão ainda estava por vir.

No final do século XIX, comemorações carnavalescas ainda eram basicamente festas à moda européia, voltadas à elite da sociedade. A abolição da escravidão finalmente permitiu que um forte componente da cultura africana fosse inserido nessas festas, tanto no âmbito musical como na vestuária e mesmo nos costumes festivos. O termo que iria evoluir para a versão atual vem de "mi-carême", do francês, que significa "meia-quaresma". Em 1914, já num processo de abrasileiração, a mi-carême passou a ser encarada como um "carnaval fora de época".

Interessante é que nessa mesma época o carnaval de Salvador vinha entrando numa fase de maré baixa, muito desanimada, em boa parte devido à "repressão policial contra as formas culturais e religiosas de origem africana". A própria mi-carême fora transferida para um domingo posterior à Páscoa, para evitar problemas com a igreja, e com isso também "perdeu o sabor, ameaçando morrer".

Como então a micareta renasceu? Se forças culturais e inércias sociais são forças inegáveis a balizar o curso da história, o renascimento das micaretas vem nos lembrar do papel imprescindível do acaso, da aleatoriedade mesmo, na definição de uma história particular dentre todas as histórias possíveis... Explico! Na década de 30 do século XX as grandes cidades polarizavam as festas carnavalescas. Feira de Santana, localizada ao lado de Salvador, era praticamente esvaziada na época do carnaval devido às "migrações festivas". Quem realmente queria aproveitar o carnaval abandonava a cidade e se dirigia a Salvador.

[...] em 1937, uma chuva diluviana impediu que o carnaval fosse comemorado normalmente e os foliões feirenses, inconformados e frustrados, decidiram postergar os festejos momescos, realizando-os algumas semanas depois da data convencional. O sucesso do primeiro "carnaval fora de época" feirense que surgiu dessa decisão foi tal, que a festa se repetiu nos anos seguintes e tornou-se a mais animada do ano, eclipsando o próprio carnaval que, a partir de então, deixou totalmente de ser celebrado.

Em 1949 outro evento marcante: "dois eletrotécnicos e músicos de Salvador, Osmar Macedo e Antônio Adolfo do Nascimento (o Dodô), inventaram o que mais tarde seria o trio elétrico: em 1949, ainda não se falava de trio mas sim de dupla elétrica, pois os dois se apresentavam sós, tocando num carro aberto (um velho Ford Fobica de 1929), com suas guitarras baianas (também invenção deles) ligadas na bateria do carro."


Daí pra frente a coisa toda foi evoluindo de forma razoavelmente orgânica... A "dupla elétrica" evoluiu para trio elétrico, o carro foi substituído por caminhão, o termo "trio elétrico" passou a ser confundido mais com o caminhão em si do que com os artistas musicais que se apresentavam sobre ele... Inicialmente, as apresentações eram abertas, ocorriam pelas ruas, e eram custeadas pelas prefeituras das cidades e também por empresas de bebida, porém os trios elétricos foram ficando cada vez mais caros, até que evoluíram para eventos fechados, que permitiam cobrar diretamente dos "foliões" uma taxa determinada.

Curiosidade: "O abadá só foi criado em 1992, e sua criação é reivindicada pelo bloco de trio Eva".

Concluindo... Gostei muito de ler esse artigo, em primeiro lugar porque sua profundidade analítica faz saltar aos olhos a importância do que posso chamar de perspectiva histórica, ou seja, a ampliação de olhar gerada pela consideração da história de um fenômeno, ao invés da simples apreciação fria de seu aspecto atual. Pude ver ao longo do artigo como as forças presentes no substrato cultural baiano escorreram ao longo da história, com seu curso sofrendo desvios por força do acaso ou do conflito com outras forças também presentes, levando pequenos eventos isolados a compor o que hoje pode ser considerado uma grande instituição, uma organização estabelecida. Assim, paralelamente, essa perspectiva história nos abre os olhos para a dimensão escondida de eventos que hoje nos parecem pequenos, isolados e insignificantes, mas que guardam em si um potencial inimaginável para estruturar algo maior no futuro.

Em segundo lugar, a leitura do artigo foi interessante por constituir um exemplo claro de fenômeno de emergência, entendendo aqui emergir no sentido de surgir. Os atores que compõe o fenômeno como um todo não estão planejando toda a seqüência histórica que suas ações localizadas, microscópicas, os fará descrever. Embora exista uma lógica inteligível no processo de crescimento do fenômeno "micareta", principalmente em sua profissionalização a partir dos anos 50 com o advento do trio-elétrico, salta-me claramente aos olhos uma espécie deirracionalidade subjacente de seus agentes ao longo das décadas.

REFERÊNCIA: GAUDIN, Benoit. Da mi-carême ao carnabeach - história da(s) micareta(s). Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 12(1):47-68, maio de 2000.