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Tuesday, June 28, 2011

Menos Hipócrates, mais Prozac



O título do post, obviamente, é uma brincadeira com o título do livro Menos Platão, Mais Prozac. Mas... Hipócrates? O que tem ele a ver com a psicologia, com nossas depressões, com nossos... humores! Sim, humores... A palavra usualmente refere-se aos nossos sentimentos, mas há também um outro significado não tão comum hoje em dia. Aí vai:

s.m. Fisiologia. Substância fluida de um animal, como o sangue, a linfa, a bile etc. Na medicina medieval, tinham grande importância os quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. Supunha-se que a saúde de uma pessoa dependia de uma mistura correta desses quatro humores em seu corpo.

Pois bem. O sangue e a bile amarela realmente são substâncias que merecem toda uma atenção em nosso organismo. Já quanto à bile negra... Não temos fluidos escuros em nosso corpo. De onde será que o incauto tirou essa hidéia? Teria observado alguma autópsia nada amigável? Interessante é que a bile negra era supostamente a causadora da melancolia. (supunha-se que qualquer estado ruim de nosso corpo fosse oriundo de um desequilíbrio entre esses quatro líquidos). A palavra melancolia vem do grego e significa "bílis preta". Quando dizemos então "estou de mal humor", na verdade não estamos usando a palavra humor em um novo sentido. Estamos apenas usando uma velha explicação, hoje em geral esquecida, para nossos desânimos e indisposições. Depois que li sobre isso notei que a palavra melanina tem o mesmo prefixo que melancolia, e ambas remetem à cor escura. Procurando um pouco por aí, achei o termo original: mélano.

Muito bem. Mas... voltando ao início da conversa... de onde mesmo Hipócrates tirou a idéia desses quatro fluidos circulando em nosso corpo? Um mendigo bêbado que encontrei próximo à Estação da Luz me explicou o seguinte, e acho que ele está certo: foi um tal de Empédocles que começou com essa lorota toda, ao dizer que tudo era feito de terra, ar, fogo e água. Quatro elementos. Como um bêbado imita o outro, veio logo Hipócrates a considerar que a saúde seria também explicada pela harmonia e dinâmica de quatro elementos. Até hoje a doutrina tem seus frutos em misticismos diversos, em fósseis linguísticos como "estou de mal humor", ou no desenho do Capitão Planeta.


Monday, May 30, 2011

Até onde vão as inspirações?


Num ótimo livro de história da ciência:

"Assim como as leis do movimento foram invocadas para explicar tudo, desde política a moralidade, também a lei da gravitação universal foi arrastada à política, à biologia e à química. O cientista do Iluminismo, Maupertius, que publicou em 1732 o primeiro texto francês a explicar acuradamente a teoria de Newton, arriscou que a lei da gravidade poderia ter um paralelo no funcionamento de organismos vivos. David Hume falou da associação de idéias em termos newtonianos. Houve aqueles que compararam um rei e seus cortesãos e conselheiros ao Sol e seus planetas, sendo mantidos juntos por uma força atrativa. Estas tentativas de incorporar grandes desenvolvimentos científicos a outros campos hoje parece ridículo, mas o mesmo fenômeno iria repetir-se com Darwin e Einstein." (A Escalada da Ciência, Brian L. Silver)

Quase mudando de assunto, vamos ver um pouco sobre a evolução do cérebro, e depois faço meu comentário. Segundo Steven Mithen, professor de Arqueologia, pode-se considerar hoje que a formação da mente moderna se deu em três fases:

Fase 1: Mentes regidas por um domínio de inteligêcia geral - uma série de regras sobre aprendizado geral e tomadas de decisão. (Ou seja, algo que pode-se esperar mesmo em organismos simples. Um único "módulo" dedicado a tentar interagir com o mundo da melhor forma possível seguindo um pacote relativamente simples de regras.

Fase 2: Mentes onde a inteligência geral foi suplementada por várias inteligências especializadas, cada uma devotada a um domínio específico do comportamento e funcionando isoladamente. (Traduzindo: há uma parte do cérebro dedicada a atividades manuais. Há outra parte dedicada a produzir e reconhecer sons. Há outra parte dedicada a administrar as relações sociais no grupo. Estas partes cerebrais não se conversam ou sua inter-colaboração é muito precária)

Fase 3: Mentes onde as múltiplas inteligências especializadas parecem trabalhar juntas, havendo um fluxo de conhecimento e de idéias entre os domínios comportamentais. Em português claro, porém não necessariamente seguindo novas (ou velhas!) normas gramaticais: o processamento de informações na área dedicada a coordenação motora pode ter influência sobre a área de raciocinio lógico. O processamento de sons de repente pode influenciar o trabalho manual. Enfim... áreas internas diferentes do cérebro passam a interatir. Em particular, pensamentos em torno de um determinado assunto poderão livremente inspirar outros assuntos aparentemente não-correlatos.

Agora sim já dá para misturar as duas coisas... Brian Silver fica um pouco indignado com essa atitude de extrapolação despudorada de conceitos, porém essa é uma constante no intelecto humano. Pode até ser argumentado que é o que torna capaz o intelecto humano, para início de conversa. O que são os números se não o veículo mágico que permite ao pensamento lógico navegar livremente (sem culpa e sem impostos!) dentre os mais distintos domínios?

Há algo ainda mais interessante do que nossa tendência quase poética de extrapolar conceitos sem muitos rigores: a dinâmica de difusão e persistência dos conceitos criados por este processo. O mesmo processo de criação que origina tantas novas descobertas também origina os mais absurdos conceitos que, ainda assim, encontram seu nicho dentro da riquíssima culturosfera terrestre.

Ou então esse é só um pensamento bobo a que cheguei por caminhos pouco ortodoxos e condenáveis. Sei lá. ;)

Monday, December 28, 2009

Pensamentos retrógrados

Tem muita gente por aí que acredita em baboseiras. Criacionistas, como o turco Adnan Oktar (ver mais aqui), religiosos das mais diversas espécies e pseudocientistas em geral. Podem acreditar nas idiotices que for, eu não ligo. O que me incomoda profundamente é a incrível pró-atividade dessa gente em difundir asneiras mundo afora. Dizer que não há evidências da evolução humana. Que todo produto químico é deplorável. Defender que vacinas são perigosíssimas e que é melhor não submeter seu filho a esse risco. Acreditar que as pessoas tem seu perfil psicológico influenciado pela astrologia. Acreditar que um embleminha qualquer colocado num canto estratégico da casa vai mudar o fluxo cósmico de energia naquela região e te tornar uma pessoa melhor.

Não tenho nenhum sentimento revoltado com as pessoas que acreditam nisso tudo, são os destinatários finais de grandes estruturas de deturpação da verdade e vítimas de todas as fraquezas institucionais da sociedade moderna - fraquezas educacionais, democráticas e outras. Sim, pois ao mesmo tempo que democracia pressupõe liberdades amplas, o que significa poder acreditar no que quiser, imagino que uma democracia realmente saudável deveria efetivamente funcionar, não apenas permitindo que os cidadãos acreditem no que quiser, mas criando estruturas que espontaneamente orientem a maior parte dessas crenças a algo mais verdadeiro. O que me incomoda são os promotores de todo esse mar de mentira. Bispos, pseudo-cientistas, o papa, os rabinos, os astrólogos, tarólogos, ufólogos... Talvez eu não me incomode tanto com os tarólogos, pois eles vivem numa esfera claramente separada da ciência, não compram a briga de concorrer com ela. É algo mais genuinamente folclórico.

Ou estou puxando a sardinha pro meu lado demais? Não é, por fim, saudável que surjam nas sociedades núcleos com as mais diversas crenças? Não é o equivalente macro-social de um brainstorming honesto que todo pensador deveria fazer diante da realidade? Não é isso, por mais irracionais que sejam suas ramificações, que garante à sociedade como um todo uma racionalidade saudável?

Pra início de conversa, como podem essas crendices existir? O que as sustenta? Por que uma pessoa prefere acreditar que a vida surgiu do nada? Por que a impressão de que um mundo sem deus é obrigatoriamente frio, egoísta e ruim? Por que acreditar em uma estrutura claramente falha para o mundo ao nosso redor ainda é mais cativante do que entender que certas coisas não são tão estruturadas?

Esses idiotas todos no fundo são pessoas como todas as outras. Como eu, aqui idiota achando que sei mais que os outros.

Saturday, May 09, 2009

Tortuoso caminho entre as montanhas


Como o cérebro de humanóides primitivos foi aumentando de tamanho ao longo do tempo geológico até chegar ao design do homem moderno? Para responder esta interessante questão Sergey Gavrilets e Aaron Vose, da Universidade do Tennessee, adotaram a abordagem da simulação computacional. Nada melhor do que simular uma população de 50 a 150 indivíduos (tamanho compatível com grupos de hominídeos do passado, até onde sabemos). A simulação que os dois fizeram leva em conta evolução genética (orientando, primordialmente, o tamanho e a capacidade cerebral), bem como a evolução memética (evolução cultural de um conjunto de idéias, que é limitada pela capacidade cerebral).

Uma das observações interessantes do estudo é que num primeiro momento qualquer aumento da capacidade cerebral em humanóides primitivos é anti adaptativo! Isso porque uma capacidade cerebral maior justifica-se apenas na eventual ocorrência de memes vantajosos, mas não há a menor razão para supor que o sumples surgimento de um cérebro como uma capacidade marginal melhorada implicará na ocorrência de algum meme benéfico. Somos assim confrontados com um fato da natureza: a evolução não opera jamais sobre um ótimo local. Os pontos em que as populações são evolutivamente estáveis apresentam sempre uma distribuição em torno do ótimo. Ou seja, inicialmente, os humanos com cérebros maiores tratavam-se de um distanciamento do ótimo evolutivo, não de uma marcha em direção a ele, e foi só por conta de um outro evento completamente inesperado e imprevisível (a ocorrência de memes vantajosos) que cérebros maiores mostraram-se uma vantagem adaptativa.

É preciso ter em mente que esta é uma explicação por demais simplificada. Não faz sentido pensar em cérebros maiores como "computadores mais potentes" a espera de softwares melhores para executar. No mundo real, cérebros maiores poderiam conferir vantagens aos "softwares" já implementados em nossa mente, principalmente aos relacionados com o convívio social e memória (onde foram vistos predadores, onde foi encontrada água da última vez, etc).

De qualquer modo, por simplificado que seja, o artigo de Gravilets e Vose mostra que o surgimento de cérebros avantajados no Homo sapiens representa um processo de migração de um "máximo evolutivo", um ponto em que um design ótimo, por assim dizer, encontra-se estabelecido, para um outro ponto completamente distinto onde uma estratégia diferente passa a ser predominante.

Um outro ponto que serve de interessantíssimo ponto de partida para discussões sobre nossa sociedade atual:

However, the complexity of memes present in the population does not increase but, on the contrary, decreases in time (data not shown). This happens as a result of intense competition among memes: whereas complex memes give advantage to individuals on a longer (biological) time scale, they lose competition to simpler memes on a shorter (social) time scale.

Saindo do modelo simplificado e pensando no nosso mundo, as questões são: até onde a cultura geral da sociedade pode evoluir? Há limites para o quanto é possível difundir um bom sistema educacional? Nossa evolução científica e cultural estaria condenada a algum regresso incontornável após atingir algum "máximo" num determinado momento? Ou continuaria a cultura da sociedade como um todo a evoluir porém com a cultura dos indivíduos, tomados um a um, tendendo a regredir? Ou seja, nossas "forças cognitivas" passariam a se alojar cada vez mais nas estruturas institucionais e cada vez menos nas habilidades individuais de determinados experts? O artigo não faz esse salto analítico, que é meramente filosófico, especulativo, e muito difícil de ser abordado quantitativamente. Mas que são questões interessantes, isso são!

Outros grifos do artigo:

The negative effect of the number of loci L on the characteristics of cognitive abilities is explained by the fact that more loci means weaker selection on each individual locus and, thus, weaker evolutionary response. - Talvez esse efeito seja facilmente verificável nos algoritmos de projeto genético que estou habituado a utilizar para projetos de Navios ou Aviões. É uma justificativa para manter o número de parâmetros de projetos tão pequeno quanto possível, a fim de acelerar a convergência à solução final.

[...] throughout most of human history, success in social competition translated into reproductive success with the most powerful men enjoying a disproportionate share of women and offspring [...] [A]s the extent to which social success translates into reproductive success declines in modern societies, cognitive abilities are expected to be significantly reduced by natural selection. We also expect that as the number of memes in the population dramatically increases, learning ability will decrease further (because given a sufficiently large exposure to memes, they will be learned even by individuals with relatively low learning abilities) - Penso imediatamente na Luciana Gimenez, o que talvez implique que esse processo já vem se desenrolando há algum tempo...

Quem quiser ver o artigo no PNAS, é só clicar aqui.